sábado, 26 de setembro de 2009

Missão da igreja a luz do Reino de Deus

C. René Padilla

Cada tentativa de definir a relação entre o Reino de Deus e a igreja, por um lado, e entre o reino de Deus e o mundo, por outro lado, será necessariamente incompleta. Falar do Reino de Deus é falar do propósito redentor de Deus para toda a criação e da vocação histórica que a igreja tem com respeito a este propósito aqui e agora, “entre os tempos”. É também falar de uma realidade escatológica que constitui simultaneamente o ponto de partida e a meta da igreja. A missão da igreja, conseqüentemente, só pode ser entendida à luz do Reino de Deus.

1. A PRESENÇA DO REINO
A ênfase central do Novo Testamento é que Jesus veio para cumprir as profecias do Antigo Testamento e que em sua pessoa e obra o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente.Um dos conceitos básicos da escatologia judaica no tempo de Jesus e seus apóstolos eram o das duas eras (eras e séculos), claramente expresso numa fórmula comum na literatura rabínica: “este século” e o “o século vindouro”. (NOTA 1. Não há segurança quanto ao uso da fórmula entre os rabinos antes do ano 70 d.C. juntamente com P. Volz, W.D. Davies acredita podermos ter como certo que a idéia é “mais antiga que os termos que a definem” – The seting of the sermon on the munt. Cambridge: Cambridge University Press, 1964, p. 183 – Não devemos descartar a possibilidade de que Jesus tenha sido o primeiro a usar a terminologia das duas idades. Ver Mc 10:30; Lc 18:30; Mt 12:32; etc.) O dualismo da escatología judaica reflete o profundo pessimismo em que o povo resvalara sob o gobernó de imperadores pagãos no império pós-exílio. A voz de Deus havia se calado; o Reino messiânico prometido pelos profetas não tinha aparecido. Ao contrário os fiéis de Israel eram vítimas do ódio e da perseguição dos gentios. A partir dessa situação surgiu em Israel um conceito de história com um interesse exagerado no futuro e um persistente desprezo para com o presente. A história estava divorciada da escatologia. Mesmo que os judeus esperassem que Deus estabelecesse uma nova criação, pensavam que isso só aconteceria num futuro distante. O presente estava abandonado, sob o domínio do mal e do sofrimento.Essa escatologia está em oposição à dos profetas do Antigo Testamento, para os quais o cumprimento dos propósitos de Deus na história era de suma importância.Tal como George Eldon Ladd assinalou, “ a mensagem profética se dirige ao povo de Israel numa situação histórica específica, e o presente e o futuro mantêm-se numa tensão escatológica”. (NOTA 2: George E. LADD, The presence of future: The eschatology of biblical realism. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1974, p.93).Ao longo do Novo Testamento a doutrina das duas eras é pressuposta, mas sua interpretação é feita à luz da morte e ressurreição de Jesus Cristo. A premissa fundamental é que, na vida e obra de Cristo, Deus atuou definitivamente para cumprir seu propósito redentor. O ator principal apareceu e foi dado início ao drama escatológico da esperança judaica. A escatologia invadiu a história. O impacto daquela sobre esta produziu o que Oscar Cullmann denominou acertadamente “ a nova divisão do tempo”. (NOTA 3: Oscar CULLMANN, Christ and Time. Londres: SCM, 1962, p. 81ss. Há tradução castelhana:Cristo y el tiempo. Barcelona: Estela, 1968). Em contraste com o judaísmo, o Cristianismo do Novo Testamento sustenta que o ponto médio da linha do tempo não está no futuro, mas no passado: ele chegou em Jesus Cristo. A nova era (“o século vindouro”) da esperança judaica iniciou antecipadamente; aqui e agora é possível desfrutar as bênçãos do Reino de Deus.Ainda que o ponto médio da linha do tempo tenha desaparecido, a consumação da nova era se realizará no futuro. O mesmo Deus que interveio na história para iniciar um drama está atuando ainda e continuará agindo a fim de levar o drama até sua conclusão. O Reino de Deus é portanto, uma realidade presente e ao mesmo tempo uma promessa que será cumprida no futuro: ele veio (e está presente entre nós) e virá (de modo que esperamos seu advento). A afirmação simultânea do presente e do futuro tem como resultado a tensão escatológica que permeia todo o Novo Testamento e representa, indubitavelmente, um redescobrimento da escatologia “profético-apocalíptica”, que o judaísmo tinha perdido. (NOTA 4: Ver George E. LADD, Op. cit, p. 318ss.).As pesquisas mais recentes no campo da escatologia do Novo Testamento mostram que a tradição mais antiga do ensino de Jesus combina com a afirmação da vinda do Reino, como uma realidade presente, com a expectativa do cumprimento futuro do propósito redentor de Deus. No entanto a premissa básica da missão de Jesus e o tema central de sua pregação não é a esperança da vinda do Reino numa data previsível, mas o fato de que em sua própria pessoa e obra o Reino já tenha tornado presente com grande poder. Jesus afirma que ninguém sabe o dia nem a hora em que o drama escatológico chegará a sua conclusão, “nem os anjos do céu, nem o Filho, senão somente o Pai” (Mc 13:32). Mas afirma que o último ato do drama (“os últimos dias”) já começou com ele. O Reino tem a ver com o poder dinâmico de Deus por meio do qual “os cegos vêem, os coxos andam, os leprosos são purificados, os surdos ouvem, os mortos são ressuscitados, e aos pobres está sendo pregado o evangelho” (Mt 11:5). Tem a ver com o Espírito de Deus – o dedo de Deus – que expulsa demônios (Mt 12.28; Lc 11.20). Ele é visto na libertação dos poderes demoníacos (Lc 8.36), cegueira (Mc 10.46-52), hemorragia (Mc 5.34) e a própria morte (Mc 5.23). O reino das trevas que corresponde a “este século” foi invadido; o “homem forte” foi desarmado, conquistado e saqueado (Mt 12.29; Lc 11.22). Chegou a hora anunciada pelos profetas: O Ungido veio para dar boas novas aos pobres; sarar os quebrantados de coração, pregar a liberdade aos cativos e vista aos cegos, colocar em liberdade os oprimidos e pregar o ano aceitável do Senhor (Lc 4.18-19). Em outras palavras, a conexão com o Reino de Deus. Sua missão aqui e agora é a manifestação do Reino como uma realidade presente em sua própria pessoa e ação, em sua pregação do evangelho e em suas obras de justiça e misericórdia.Em sintonia com isto, o Reino é o poder dinâmico de Deus, que se torna visível por meio de sinais concretos que mostram que Jesus é o Messias. É uma nova realidade que entrou no centro da história e que afeta a vida humana, não somente moral e espiritualmente, mas também física e psicologicamente, material e socialmente. Antecipando a consumação escatológica do final dos tempos, ele foi inaugurado na pessoa e obra de Cristo. Está ativo no meio do povo, ainda que possa ser percebido na perspectiva da fé (Lc 17.20-21). A consumação do propósito de Deus ser realizará no futuro, mas aqui e agora é possível vislumbrar a realidade presente do Reino.À luz das manifestações visíveis do Reino de Deus, pode-se entender a proclamação do Reino por parte de Jesus. Seu anúncio: “O tempo está cumprido e o reino de Deus está próximo; arrependei-vos e crede no evangelho” (Mc 1.15) não é uma mensagem verbal dada isoladamente dos sinais que o confirmam, é, antes, boa-nova acerca de algo que se pode ouvir e ver. Segundo as palavras de Jesus, (a) é uma notícia acerca de um fato histórico, um evento que se está realizando e que afeta a vida humana de muitas maneiras; (b) é uma notícia de interesse público, relacionada com toda a história humana; (c) é uma notícia relativa ao cumprimento das profecias do Antigo Testamento (o malekut Iahweh aunciado pelos profetas e celebrado por Israel tornou-se uma realidade presente); (d) é uma notícia que suscita arrependimento e fé; (e) é uma notícia que resulta na formação de uma nova comunidade, constituída por pessoas chamadas individualmente.O sentido exato em que o Reino de Deus chegou, pode ser visto na história da obra de Jesus, que se desenvolve em seguida ao anúncio do Reino. Nele e por meio dele o Reino de Deus tornou-se uma realidade presente.

2. O REINO E A IGREJA
O Novo Testamento apresenta a Igreja como a comunidade do Reino, a comunidade que reconhece a Jesus como Senhor do universo, por meio da qual, numa antecipação do fim, o Reino se manifesta concretamente na história.Os termos Messias e comunidade messiânica são correlatos: se Jesus é o Messias, como afirmou ser, então não surpreende que, entre outras coisas, ele se tenha rodeado de uma comunidade que reconhecia a validade de sua afirmação. Basta uma análise superficial da evidência para concluir que de fato foi assim. Em seu ministério, ele convidou homens e mulheres a deixar tudo para segui-lo (Lc 9.57-62; 14-25-33; Mt 10.34-38). Aqueles que seguiram o seu chamado constituíram o “pequenino rebanho” ao qual o Pai deseja dar o Reino (Mt 26.31; Lc 12.32). Eles serão reconhecidos por Jesus na presença do Pai que está nos céus (Mt 10.32ss). São sua família, mais próximos a ele que seus próprios irmãos e mãe (Mt 12.50).A referencia de Jesus a esta comunidade messiânica como “minha igreja” (Mt 16.18) se ajusta perfeitamente com um propósito de sua missão: sua intenção de rodear-se de uma comunidade própria, na qual as promessas do pacto de Deus com Israel estabelecerá uma igreja que seja caracteristicamente sua, sugere a relação entre a igreja e sua messianidade; somente depois que seus discípulos o tenham reconhecido como Messias, ele anuncia-lhes sua intenção. Ele é o Messias, em quem o Reino de Deus se tornou realidade presente. A igreja é a comunidade que surge como resultado de seu poder real. Sendo assim, é óbvio que a igreja não deve ser equiparada com o Reino.Como diz Ladd:Se o conceito dinâmico do Reino estiver correto, nunca deverá ser identificado com a igreja (...) Na terminologia bíblica, o Reino não se identifica com seus sujeitos. Estes são o povo de Deus que ingressa no Reino, vive sob seu mando e é governado por ele.A igreja é a comunidade do Reino, mas nunca o próprio Reino (...) O reino é o reinado de Deus, a igreja é uma sociedade de pessoas. (NOTA 5. George E. Ladd. A theology of the New Testament. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1974, p.111; em português: Teologia do Novo Testamento. Rio de Janeiro: JUERP, 1985).
Segundo o propósito de Deus de Pentecostes o Reino de Deus continuaria como uma realidade presente por meio do dom do Espírito Santo. Isto está claro pelo fato de que, quando os discípulos de Jesus lhe perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel”, ele respondeu: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou para sua exclusiva autoridade;mas recebereis poder, ao descer sobre vós o Espírito Santo (...)” (At 1.6-8). O Espírito Santo é, portanto, o agente da escatologia em processo de realização. O Reino de Deus que irrompeu na história em Jesus Cristo continua atuando por meio do Espírito Santo.A Igreja é o resultado da ação de Deus por meio do Espírito. Ela é o corpo de Cristo e, como tal, a esfera na qual opera a vida da nova era iniciada por Jesus Cristo; o Espírito Santo é o agente por meio do qual esta vida é ortogada aos crentes (2 Co 2.4ss). Isto significa que a igreja não é primordialmente uma organização, mas um organismo cujos membros estão unidos pela ação do espírito. “Um corpo” correspondente a “um Espírito” (Ef 4.3-4).Não se pode exagerar a importância desta relação entre o Espírito Santo e a igreja para a compreensão correta da relação entre o Reino de Deus e a Igreja. A Igreja depende do Espírito para sua própria existência. Suas palavras e ações são meramente o meio para manifestação presente do Reino de Deus, e não podem ser explicadas plenamente como palavras e ações humanas. O Reino de Deus não pertence exclusivamente ao futuro. Ele é também uma realidade presente, manifestada na comunidade cristã, que é “habilitação de Deus no Espírito” (Ef 2.22). A Igreja não é o Reino de Deus, mas o resultado concreto do Reino. Ela leva as marcas de sua existência histórica, do “ainda não” que caracteriza o tempo presente.Mas aqui e agora ela participa do “já” do Reino que Jesus iniciou.Como a comunidade do Reino habilitada pelo Espírito Santo, a Igreja é claramente chamada a ser uma nova sociedade, uma terceira força junto com os judeus e gentios (1 Co 10.32). Ela não deve ser equiparada com o Reino, mas tampouco separada dele. Seu propósito é refletir os valores do Reino, aqui e agora, pelo poder do Espírito Santo. Não é ainda a “Igreja gloriosa”, mas sim “o Israel de Deus” (Gl 6.16), o povo de Deus chamado a confessar Jesus Cristo como Senhor e viver à luz desta confissão. Como Leslie Newbigin o expressa:
Somente a comunidade que começou a experimentar (ainda que seja apenas inicialmente) a realidade do Reino pode prover a hermenêutica da mensagem (...) Sem a hermenêutica desta comunidade vivente, a mensagem do Reino somente pode se converter numa ideologia e num programa: não será o evangelho. (NOTA 6. Leslie NEWBIGIN. Sign of the Kingdom. Grand Rapids: William B. Eerdmans, 1980, p.19).

3. MISSÃO E BOAS NOVAS
Já que o Reino foi inaugurado por Jesus Cristo, não é possível entender corretamente a missão da igreja independentemente da missão de Jesus. È a manifestação, ainda que não completa,do Reino de Deus tanto por meio da proclamação como por meio da ação e do serviço social. O testemunho apostólico continua sendo o testemunho do espírito acerca de Jesus Cristo, por meio da Igreja. Deus que “colocou todas as coisas debaixo dos seus pés e, para ser o cabeça sobre todas as coisas, o deu à igreja, a qual é o seu corpo, a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22-23). Como comunidade do Reino, a Igreja confessa e proclama ao Senhor Jesus Cristo. Ela também realiza boas obras que Deus preparou de antemão para que as faça, para o que Deus a criou em Jesus Cristo (Ef 2.10). É verdade que “por meio dos escritos apostólicos, Jesus e os apóstolos continuam falando”; (NOTA 7. Arthur P. JOHNSTON. El Reino en relación a la iglesia y el mundo.Palestra apresentada na Consulta sobre a relação entre evangelização e responsabilidade social, realizada em Grand Rapids de 19 a 26 Junho de 1982, na p.28).é igualmente verdade que por meio da igreja e de suas boas obras o Reino de Deus se torna historicamente visível como uma realidade presente. As boas obras, portanto, não são um mero apêndice da missão, mas uma parte integral da manifestação presente do reino: elas apontam para o Reino no que já veio e para o Reino que está por vir.Isto não significa, obviamente, que as boas obras – os sinais do Reino – necessariamente persuadirão os não-crentes acerca da verdade do evangelho. Mesmo as obras realizadas por Jesus foram por vezes rejeitadas. Suas palavras foram igualmente rejeitadas. Conseqüentemente, não devemos interpretar a missão cristã de tal modo que deixemos a impressão de que a proclamação verbal é “por si só persuasiva aos não-crentes”, enquanto os sinais -as boas obras –não o são. (NOTA 8. Arthur P. JOHNSTON. Op cit., p. 29; cf.p.44) Nem o ver nem o ouvir necessariamente produzem fé. Tanto a palavra como a ação apontam para o Reino de Deus, mas” (...) ninguém pode dizer: Senhor Jesus! Senão pelo Espírito Santo” (1 Co 12.3).

4. O REINO DE DEUS E O MUNDO
Segundo o Novo Testamento, todo o mundo foi colocado sob o senhorio de Jesus Cristo. A esperança cristã se relaciona com a consumação do propósito de Deus de unir todas as coisas no céu e na terra sob o mando de Cristo como Senhor, e de libertar a humanidade do pecado e da morte em seu Reino.O Cristo que a Igreja reconhece como Senhor é o Senhor de todo universo. Nesta afirmação de seu senhorio universal, a Igreja encontra a base para sua missão. Cristo foi coroado como Rei, e sua soberania se estende sobre a totalidade da criação. Como tal, ele comissiona os seus discípulos a fazerem discípulos de todas as nações (Mt 28.18-20).
A igreja é a expressão do senhorio universal de Jesus Cristo, a manifestação concreta do Reino de Deus. Que Jesus é “Senhor de todos” significa não somente que ele seja soberano sobre a humanidade, mas que no tempo presente concede as bênçãos do Reino de Deus a todos os que invocam seu nome (Rm 10.12). “Que ele é o cabeça sobre todas as coisas” é importante porque como tal ele recebeu domínio sobre a Igreja, de modo que esta seja “ a plenitude daquele que a tudo enche em todas as coisas” (Ef 1.22). Como Senhor exaltado, cuja autoridade se estende por todo o universo, ele deu a seu povo dons para capacita-lo para crescer como uma unidade orgânica, de modo que possa imitar o modelo da humanidade realizado perfeitamente em sua pessoa (Ef 4.10ss). Ele é o primogênito de toda a criação por causa do seu papel como sabedoria de Deus, e ao mesmo tempo é o primogênito da nova criação por causa de sua ressurreição (Cl 1.15,18). Ele é o “cabeça de todo principado e potestade” (Cl 2.10) e ao memso tempo “a cabeça do corpo, a igreja” (Cl 1.18; cf Ef 5.23), a cabeça da qual a igreja recebe sua vida (Cl 2.19). Pela morte de Cristo, Deus quis reconciliar consigo “todas as coisas” (Cl 1.20), e “no corpo da sua carne, mediante sua morte”, reconciliou os crentes a fim de apresenta-los “santos, inculpáveis e irreprensíveis” perante ele (Cl 1.22). O fato de que ele esteja “à direita da Majestade nas alturas” não somente se relaciona com sua proeminência como o Rei mediador de toda a criação, mas aponta para seu ministério de intercessão em favor de seu povo (Hb 1.3,10,12; Rm 8.34).
Esta ênfase central do Novo Testamento nos leva à conclusão de que a Igreja, para ser compreendida corretamente, deve ser vista no contexto do propósito universal de Deus em Cristo Jesus. A intenção de Deus é “fazer convergir nele (...) todas as coisas, tanto as do céu como as da terra” (Ef 1.10). O “segredo revelado” está sendo realizado já na Igreja, cuja confissão de Jesus Cristo antecipa o cumprimento do propósito de Deus de que “(...) ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.10-11). Falar de Reino de Deus é falar de um evangelho universal – uma mensagem centrada no Filho que foi enviada pelo pai para ser o “Salvador do mundo” (1 Jo 4.14).
O fato de que o propósito de Deus inclua todo o mundo não significa que todos os homens e mulheres automaticamente pertençam ao Reino. O Reino de Deus é uma ordem escatológica à qual se deve entrar, e ninguém pode entrar nela sem reunir certas condições (Mt 5.20; 7.21; 18.3; 19.23; Mc 10.23ss). Conseqüentemente, a proclamação do Reino de Deus não é meramente a proclamação de um fato objetivo com respeito ao qual todos devem ser informados; é antes, simultaneamente a proclamação de um fato objetivo e um convite à fé.
No entanto, à luz do propósito universal de Deus não é possível entender a relação do mundo não é possível entender a relação do mundo com o Reino exclusivamente em termos da providencia de Deus. Com a vinda de Jesus Cristo, todo o mundo foi colocado sob o sinal da cruz e isso significa não somente juízo, mas também graça. Porque Cristo morreu e ressuscitou, o mundo já não pode ser visto meramente como a humanidade sob o juízo de Deus. Seu “ato de justiça” tem dimensões universais. Por que “assim como por uma só ofensa veio o juízo sobre todos os homens para condenação, assim também por um só ato de justiça, a vida” (Rm 5.18). O evangelho continua sendo a proclamação de um evento que afeta a totalidade da vida humana.
Conseqüentemente, não basta dizer que Deus “providencialmente reina supremo e conduzirá toda a história ao cumprimento de seus propósitos em sua criação”, (NOTA 9. Arthur P. JOHNSTON. Op. cit., p.17) como se a obra de Cristo fosse totalmente irrelevante em relação à maneira com que Deus cumprirá seu propósito para a história. Cristo foi exaltado como Senhor. Ele deve exercer seu reinado –deve reinar- até que todos os seus inimigos, incluindo a morte, tenham sido colocados debaixo dos seus pés.“Quando, porém, todas as coisas lhe estiverem sujeitas, então o próprio Filho também se sujeitará àquele que todas as coisas lhe sujeitou, para que Deus seja tudo em todos.” (1 Co 15.28).
O Deus da redenção é também o criador e juiz de toda a humanidade que deseja a justiça e a reconciliação para todos. Seu propósito para a igreja, portanto, não pode ser separado de seu propósito para o mundo. A igreja só é corretamente entendida quando vista como sinal do Reino universal de Deus, os primeiros frutos da humanidade redimida. Aqui e agora,, em antecipação do fim, na igreja e por meio dela, todo o mundo é colocado sob o senhorio de Cristo, e portanto, sob a promessa de Deus de um novo céu e uma nova terra no Reino de Deus. Não se pode ler o Novo Testamento e tentar entender a Igreja à parte do propósito de Deus para a humanidade e para a história, do qual ela deriva seu significado. No entanto, a universalidade do evangelho não significa que todos participarão no Reino de Deus, mas que a Igreja proclamará o Reino a todos (cf. At 1.8;19.8; 28.23). A redenção da criação é inseparável da “revelação os filhos de Deus”; sua libertação é inseparável da “liberdade da glória dos filhos de Deus” (Rm 8.19-21). Em outras palavras, na perspectiva do Novo Testamento, o significado cósmico da igreja. Esta não é uma seita composta por umas poucas almas resgatadas do tumultuoso mar da história, mas a minifestação cósmica da multiforme sabedoria de Deus, que criou todas as coisas (Ef 3.9-10), o “novo homem” em quem se reproduz a imagem do segundo Adão (Ef 2.15; 4.13; 1 Co 15.45), os primeiros frutos da nova humanidade (Tg 1.18).
Falar do Reino de Deus em relação ao mundo não é somente afirmar a providência de Deus, mas falar do Rei-Mediador Jesus Cristo, cujo Reino se faz visível (mesmo que ainda não em sua plenitude) na comunidade que confessa seu nome. È também confirmar que Deus tem um propósito para a história, o mesmo que provê sentido e direção à missão da Igreja aqui e agora. Deus está ativo para realizar o seu propósito para com a criação. A Igreja no poder do Espírito proclama a salvação em Cristo e planta sinais do Reino, entregando-se sempre inteiramente à obra do Senhor, sabendo que seu labor no Senhor não é em vão (1 Co 15.ç58).
CONCLUSÕES1. Tanto a evangelização como a responsabilidade social podem ser entendidas unicamente à luz do fato de, que, em Cristo Jesus, O Reino de Deus invadiu a história e agora é uma realidade presente e ao mesmo tempo um “ainda não”. Neste sentido, O Reino de Deus não é “o melhoramento social progressivo da humanidade, segundo o qual a tarefa da Igreja é transformar a terra em céu, e isto agora”, nem “o reinado interior de Deus presente nas disposições morais e espirituais da alma, com sua base no coração”. (NOTA 10. Destes conceitos, Johnston rejeita o primeiro e aceita o segundo. Como observou corretamente Joachin Jeremias, “nem no judaísmo nem em parte alguma do Novo Testamento encontramos algum exemplo, no coração; esta interpretação espiritualista fica descartada tanto para Jesus como para a tradição cristã primitiva” – New Tstament Theology: The proclamation of Jesus. Londres: SCM Press, 1971, p. 101. Em castelhano: Teologia del Nuevo Testamento. Salamanca: Sígueme, 1974). Antes, ele é o poder de Deus, liberto na história, que traz boas novas aos pobres, liberdade aos cativos, vista aos cegos e libertação aos oprimidos.2. A evangelização e a responsabilidade social são inseparáveis. O evangelho é boa nova acerca do Reino de Deus. As boas obras, por outro lado, são so sinais do Reino para as quais fomos criados em Cristo Jesus. A palavra e a ação estão indissoluvelmente unidas na missão de Jesus e de seus apóstolos, e devemos mantê-las unidas na missão da Igreja, na qual se prolonga a missão de Jesus até o final do tempo. O Reino de Deus não é meramente o governo de Deus sobre o mundo por meio da criação e da providência; e esse fosse o caso, não poderíamos afirmar que foi inaugurado por Jesus Cristo. O Reino de Deus é, antes, uma expressão do governo final de Deus em toa a criação, o mesmo que, em antecipação ao fim, se fez presente na pessoa e obra de Jesus Cristo. Tanto a proclamação do Reino como os sinais visíveis de sua presença por meio da Igreja se realizam pelo poder do Espírito – o agente da escatologia em processo de realização – e apontam para sua realidade presente e futura.A necessidade mais ampla e mais profunda de todo o ser humano é um encontro pessoal co Jesus Cristo, o Mediador do Reino. “Deus é o mesmo Senhor de todos e abençoa muito a todos os que pedem a sua ajuda. Como dizem as Escrituras Sagradas: “Aquele que pedir ajuda do Senhor será salvo”. (Rm 10.12-13, LH). Nesta perspectiva, e somente nela, é possível afirmar que “o serviço de evangelização abnegada figura como a tarefa mais urgente da Igreja” (Pacto Lausanne, seção 6), e o evangelho é boa-nova acerca do Reino, e o Reino é o domínio de Deus sobre sua totalidade da vida. Cada necessidade humana, portanto, pode ser usada pelo espírito de Deus como o ponto de partida para a manifestação de seu poder real. Por isso, na prática é irrelevante perguntar qual vem primeiro, a evangelização ou a ação social. Em cada situação concreta, as próprias necessidades provêem a definição das prioridades.Se a evangelização e a ação social são consideradas essências na missão, não necessitamos de um manual que nos diga qual vem primeiro e qual vem depois. Por outro lado, se não são considerados essenciais, o esforço para entender a relação entre elas é um exercício acadêmico inútil; tão inútil como tentar entender a relação entre a asa esquerda e a direita de um avião, quando se acredita que um avião pode voar com uma asa só. E quem pode negar que a melhor maneira de entender a relação entre duas asas de um avião é voar nele, ao invés de especular a respeito?3. De acordo com a vontade de Deus, a Igreja é chamada a manifestar o Reino de Deus aqui e agora, tanto através daquilo que ela faz, como através do que proclama. Porque o Reino de Deus já veio e está por vir;a Igreja “entre os tempos” é uma realidade escatológica e histórica. Se não manifesta plenamente o Reino, isto não se deve a que o Reino dinâmico de Deus tenha invadido a presente era “sem a autoridade ou o poder para transformá-la na era vindoura”, (NOTA 11. Arthur P. JOHNSTON. Op cit., p. 23), mas porque a consumação não chegou ainda. O poder que está ativo na igreja, no entanto, é como a operação do poder de Deus, o qual “exerceu ele em Cristo, ressuscitando-o dentre os mortos, e fazendo-o sentar a sua direita nos lugares celestiais, acima de todo principado e potestade, e poder, e domínio, e de todo o nome que se possa referir não só no presente século, mas também no vindouro” (Ef 1.20-21). A missão da Igreja é a manifestação histórica deste poder por meio da palavra e da ação, no poder do Espírito Santo.5. Por sua morte e ressurreição, Jesus Cristo foi exaltado como Senhor do universo. Conseqüentemente, todo o mundo foi colocado sob seu senhorio. A Igreja antecipa o destino de toda a humanidade. Entre os tempos, portanto, a Igreja – a comunidade que confessa a Jesus Cristo como Senhor e através dele reconhece a Deus como criador e juiz de todos os homens – está chamada a “participar dessa solicitude divina pela justiça e reconciliação em todas as sociedades humana, e pela libertação do homem de toda forma de opressão” (Pacto de Lausanne, seção 5). A entrega de Jesus Cristo é entrega a ele como Senhor do universo, o Rei diante do qual todo joelho se dobrará, o destino final da história humana. Mas a consumação do Reino de Deus é a obra de Deus. Nas palavras de Wolfhart Pannenberg, “O Reino de Deus não será estabelecido pelo homem. Muito enfaticamente, ele é o Reino de Deus (...) O homem não é exaltado, mas degradado quando se torna vítima de ilusões acerca de seu poder”

Ser salvo


Ariovaldo Ramos


Estava ouvindo Norah Jones, a extraordinária cantora de jazz (esse som do céu), americana, que, merecidamente, ganhou, de uma vez, 8 grammys, o Oscar da música americana, quando Judith me chamou a atenção para o fato da voz de Norah lembrar, muito, a voz duma grande amiga nossa, outra cantora maravilhosa. Imediatamente fui transportado para a realidade dessa amiga. Nossa amiga é uma mulher que, até ser salva por Cristo, só conheceu o sofrimento, do mais atroz; consumida pelas drogas e pela violência, teve sua genialidade comprometida, de fato, era para estar vegetando sobre uma cama, foi, miraculosamente, salva por Jesus. Foi e está sendo salva, pois, ela pode ir muito mais longe. O que me leva para a questão que gostaria de lhe propor. O que é uma pessoa salva? Um ser humano salvo é alguém que se tornou semelhante a Jesus, como preconiza Rom 8.29. Uma pessoa semelhante a Jesus reproduz o caráter dele: ama ao Pai, a si mesmo e ao próximo como ele amou. E você sabe, o amor está, basicamente, definido em 1Co 13 e em Gl 5.22,23: "Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio". Depois de amor deveria vir a pontuação "dois pontos", porque todas as demais virtudes são componentes do amor. Uma pessoa salva é alquém que, a exemplo de Jesus, tem os dons e talentos plenamente desenvolvidos, fazendo tudo o que pode, cumprindo, cabalmente, o seu, insubstituível, papel na vida; tendo, portanto, superado seus traumas e fraquezas pelo pleno domínio da natureza divina em si. Está totalmente curada: espiritual, física e emocionalmente. Também, está curada socialmente, seus relacionamentos são sadios, não comete mais nenhum tipo de acepção de pessoas. E, finalmente, coroando o processo, todo o ambiente em que vive, suas circunstâncias estão curadas. O que implica na necessidade do estabelecimento do novo céu e da nova terra para a consecução da salvação. Então, ninguém está salvo! Dirá você. É que, ao mesmo tempo, em que já estamos salvos, estamos sendo salvos. Como disse Paulo em Fp 2.12b: "Continuem trabalhando com respeito e temor a Deus para completar a salvação de vocês."(BLH). A salvação tem fazes: 1- Sair do inferno - "Ele nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados." (Col 1.13,14). Tem um lado nessa fase, que precisa ser bem acompanhado, a gente é convertido, perdoado, porém, pode trazer muitas das cadeias que nos aprisionavam: "Fazei, pois, morrer a vossa natureza terrena: prostituição, impureza, paixão lasciva, desejo maligno e a avareza, que é idolatria; por estas coisas é que vem a ira de Deus [sobre os filhos da desobediência]. Ora, nessas mesmas coisas andastes vós também, noutro tempo, quando vivíeis nelas. Agora, porém, despojai-vos, igualmente, de tudo isto: ira, indignação, maldade, maledicência, linguagem obscena do vosso falar. Não mintais uns aos outros, uma vez que vos despistes do velho homem com os seus feitos (Col 3.5-9). O problema é que estas questões, não só estão em nossa natureza, como, são ressaltados por nossos traumas, e pelo jeito, errado, como aprendemos a ser gente, dando espaço para o inimigo em nossas vidas. É uma fase em que, muitas vezes, precisamos de libertação, embora, estejamos convertidos. 2 - Reaprender a ser gente - " Finalmente, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é respeitável, tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável, tudo o que é de boa fama, se alguma virtude há e se algum louvor existe, seja isso o que ocupe o vosso pensamento." (Fp 4.8). Crescemos, na maioria dos casos, sendo gente do jeito errado: " fostes resgatados do vosso fútil procedimento que vossos pais vos legaram." (1Pe 1.18b). Logo, temos de reaprender a ser gente, que é um processo de aprendizado dos valores pregados pela Bíblia, é processo de mudança de forma de ver o mundo, pela renovação dos conceitos:"E não vos conformeis com este século, mas transformai-vos pela renovação da vossa mente." (Rm 12.2). 3 - Tornar-se gente nova - Uma coisa é concordar com os conceitos de Jesus, outra, bem djferente é reagir como ele, amar e servir como ele. Isto é resultado de um processo de arrependimentos onde a natureza divina vai tomando todos os espaços de nosso ego, até que a beleza de Cristo se veja em nós, pela manifestação de seu caráter. 4 - Alcançar a plenitude como pessoa - Esta é uma face da salvação, da qual nem sempre nos damos conta. Uma pessoa está completamente salva quando alcançou a plena realização como ser humano, está integrada à comunidade e está no pleno uso de seus dons e talentos. Isso pede que a Igreja seja um lugar de estímulo ao salvo, um lugar de devoção, comunhão (uma comunidade de amigos), um espaço onde todos os dons e talentos possam expressar todo o potencial recebido do Senhor. A Igreja é chamada a ser exemplo de ambiente de emancipação humana e, também, para ser agente da mesma no mundo. Por isso a ação social e politica faz parte da pregação do evangelho. Ser salvo é ter recuperado a dignidade humana em toda a sua abrangência.

EVANGELIZAÇÃO E MARKETING

Jung Mo Sung


Recentemente o jornal O Estado de São Paulo reproduziu um artigo publicado nos Estados Unidos sobre a prática de diversas igrejas evangélicas usarem o video-game Halo 3 (um jogo extremamente violento que está fazendo muito sucesso) para atrair jovens às igrejas. O argumento é simples: as igrejas precisam e desejam atrair jovens para lhes pregar o evangelho e a mensagem de paz, mas como os jovens parecem não ter interesse nesse tipo de assunto, elas decidiram lhes o que eles querem (a oportunidade de jogar em grupos um video-game da moda) e depois tentam lhes anunciar a boa-nova de Jesus. A principal discussão em torno desse assunto é se a experiência do jogo violento no interior da igreja não vai contra a mensagem de paz que a mesma igreja tenta pregar.
Sem entrar na discussão sobre a contradição ou não entre um video-game violento e a mensagem de paz (apesar de que nem sempre o que as igrejas pregam são realmente mensagens de paz), eu quero chamar atenção para o fato de que a lógica por trás dessa estratégia pastoral é a aplicação no campo religioso da lógica de marketing: pesquisar os desejos do público alvo e adequar a oferta a esses desejos.Quando o objetivo maior de uma igreja é aumentar o número dos fiéis, parece-me bastante razoável que se aplique a lógica e as técnicas de marketing ao campo religioso. Pois, se há uma “ciência” bem desenvolvida para atender os desejos de seu público alvo e aumentar a fatia no “mercado” (seja religioso ou um outro) é o marketing.Esta é a razão pela qual o uso da lógica de marketing não está restrito às igrejas dos Estados Unidos, mas também em outros países como Brasil. Há setores das igrejas cristãs que acreditam que a solução para os problemas pastorais e, especialmente, para fazer a igreja crescer (quantitativamente) está no marketing. Esta proposta é bastante sedutora, pois muitos bispos e lideranças das igrejas estão, com certa razão, preocupados com o número de fiéis. E como as teologias tradicionalmente utilizadas nos seminários e nas pastorais não estão conseguindo solucionar este problema, marketing soa como uma inovação salvadora. Assim, muitas igrejas cristãs (inclusive a católica) possuem ou estão criando institutos de marketing a ou algo que parece como “departamento de marketing” no interior das igrejas.O maior problema dessa tendência é que a lógica profética do cristianismo entra em contradição com a lógica do marketing. As igrejas e pessoas que assumem a missão de anunciar a boa-nova do Evangelho devem ouvir em primeiro lugar a Palavra de Deus, e não os desejos dos “consumidores”. Pois se missão cristã é simplesmente atender os desejos religiosos do povo para encher as suas igrejas, o chamado à conversão não faz sentido. A conversão só ocorre porque as pessoas encontram valores e propostas que são diferentes do que estão desejando.Oferecer viodeo-games violentos, adocicar a mensagem cristã ou reduzir as liturgias a shows emotivos pode ajudar encher as igrejas, mas é também correr um sério risco de esvaziar ou até mesmo negar o evangelho.Por outro lado, eu penso que as igrejas podem e até devem levar em consideração as técnicas de comunicação e de marketing na sua missão profética de criticar as injustiças e desumanidades que marcam o nosso mundo e anunciar a esperança de um mundo mais humano.A lógica do marketing não é compatível com a missão cristã, mas há técnicas e conhecimentos utilizados pelo pessoal do marketing que podem ser aproveitados em outras lógicas. Um exemplo simples disso: o uso das técnicas de comunicação visual na confecção de materiais das lutas sociais. O equívoco do pessoal que acreditam que o marketing é a “salvação” para a pastoral não pode nos levar a outro equívoco de não aprendermos os conhecimentos e técnicas utilizados no campo de marketing que poderiam ser muito úteis na nossa missão profética.

Livrai-nos do (capitalismo) do mal

Robinson Cavalcanti


Escravismo “inevitável”Durante milênios a humanidade, na organização da sua economia, conheceu um perverso modo de produção — o escravismo: na antigüidade, pelo aprisionamento dos povos conquistados; na modernidade, pelo uso extensivo e sistemático da mão-de-obra de indígenas subjugados e, principalmente, das populações negras, forçosa e violentamente deslocadas de sua terra, seu povo e sua cultura, na África. O Brasil foi um dos primeiros países a implantar e um dos últimos a abolir esse sistema iníquo, em que os escravos não eram tidos como pessoas, mas como “coisas”, de propriedade dos seus senhores. A exploração, a violência física e sexual, e a opressão fizeram do escravismo uma longa e trágica face da humanidade caída, uma evidente e inquestionável demonstração do pecado individual, social e estrutural.A cristandade, no geral, foi conivente com o escravismo, justificando-o, legitimando-o. Se, na história, cristãos foram escravos, mais ainda o foram senhores de escravos. Teólogos chegaram a duvidar se os negros tinham alma ou não (como o haviam feito anteriormente a respeito das mulheres). Com a libertação dos escravos, o pecado social seguinte foi o racismo e a segregação, marcadamente em regiões ditas “cristãs”, como o sul dos Estados Unidos da América e a África do Sul. Por outro lado, cristãos denunciaram o pecado do escravismo, como Bartolomé de Las Casas, no Império Espanhol dos reis muy católicos, e William Wilbeforce, o corajoso parlamentar que dedicou toda a sua vida à luta contra o tráfico negreiro e a escravidão no Império Britânico very protestant.Em nosso país, registra-se positivamente os estatutos de nossa primeira igreja evangélica formada por nacionais (a Igreja Evangélica Fluminense), que exigia dos senhores de escravos convertidos a libertação dos seus escravos como pré-condição para o batismo, a profissão de fé e o status de membros em plena comunhão.Durante o longo período do modo de produção escravista, o Estado, a classe dominante e os intelectuais o justificavam como “da natureza das coisas”, “inevitável”, “necessário”, e diziam que “nenhum outro modo seria possível” e que qualquer tentativa de modificá-lo ou extingui-lo seria tida como agitação ou crime devido aos males que acarretaria.Servidão “natural”Durante séculos a humanidade, na organização da sua economia, conheceu um outro perverso modo de produção: a servidão, também conhecida como modo de produção feudal. Tinha como epicentro o continente europeu, os seus feudos, o seu rígido sistema estamental, com a sua nobreza e os seus servos, presos territorialmente à terra (gleba) e presos socialmente aos seus estamentos (extrato social aliado à categoria de produção), que marcavam, sem saída ou esperança, suas vidas e as de seus descendentes por gerações. Os servos não eram tidos como “coisas” (como no escravismo), mas como “seres inferiores” e “súditos”, igualmente explorados e violentados, como instrumentos para a acumulação de bens e capitais pela classe dominante dos feudos e reinos “cristãos”, integrantes do “Sacro Império”.A cristandade, no geral, foi conivente também com a servidão, justificando-a e legitimando-a como uma das suas próprias características, no seu apogeu.Durante o longo período do modo de produção feudal, da servidão, o Estado, a classe dominante e os intelectuais o justificavam como “da natureza das coisas”, “inevitável”, “necessário”, e alegavam que “nenhum outro modo seria possível” e que qualquer tentativa de modificá-lo ou extingui-lo seria tida como agitação ou crime devido aos males que causaria.Na verdade, temos aqui mais uma manifestação individual, social e estrutural do pecado, trágica face da humanidade caída, com a exploração da pessoa humana por seus semelhantes. Capitalismo “imprescindível”Nos últimos séculos a humanidade, na organização da sua economia, conheceu outro perverso modo de produção: o capitalismo. A nobreza foi substituída pela burguesia como classe dominante, tendo os dominados não mais como “coisas” ou “seres inferiores”, mas como mercadoria, apesar do status jurídico formal de “cidadãos”. Transmutou-se em várias fases: mercantil-imperial; industrial-colonial; serviços-neocolonial e o atual estágio de “globalização assimétrica”, monopolista ou oligopolista, além da exploração, da exclusão de continentes, países e fatias das populações nacionais. O poder, a propriedade e o saber são cada vez mais concentrados.As alternativas fascista e nazista se deram dentro do marco do capitalismo, e a ditadura (sobre o) do proletariado apresentava uma retórica socialista e um capitalismo de Estado. Com a derrocada do Império Soviético, ruíram as meta-narrativas e as utopias globais, impondo-se a “idéia única e possível” pelo Estado, pela classe dominante, pelos intelectuais e pela mídia: o neoliberalismo. Anacronismo, utopismo ou delinqüência, pois “nenhum outro sistema é possível ou desejável”.A alienação, a racionalização ou a teologia da prosperidade têm levado a cristandade à conivência ou à legitimação dessa nova expressão individual, social e estrutural do pecado, dessa nova face cruel da humanidade decaída.Na Reforma Protestante do século 16 temos uma face aristocrático-nacionalista, com o luteranismo e o anglicanismo, uma face burguesa-capitalista, com o calvinismo (hegemônica durante séculos), e uma face popular-socialista, com movimentos como os anabatistas, os niveladores e os cavadores, fonte do socialismo religioso e do socialismo cristão, contemporâneos.Amor, justiça, solidariedade, dignidade, igualdade, comunhão são valores centrais do reino de Deus na história, que se chocam com a intrínseca lei da selva, darwinismo social, do capitalismo (tentativamente “humanizado” e retoricamente “retocado”).Deus não criou o emprego, mas o trabalho, e nos manda ganhar o nosso sustento com o nosso próprio suor, e não com o suor do próximo, em um modo de produção em que todos, e cada um, seja senhor do seu corpo, do seu tempo, do seu talento e dos seus meios ou instrumentos.Há inconformação no coração e na mente dos fiéis, que aspiram, criam, denunciam e propõem. A humanidade (particularmente os cristãos) não perdeu a capacidade de criar o novo e o melhor. “Livrai-nos do mal”; “Seja feita a tua vontade, assim na terra como no céu” e “Venha o teu reino” são palavras da Palavra neste tempo sombrio, aprisionado e aprisionador.Que o Espírito Santo reacenda na igreja a chama da esperança, mesmo diante da lamentável decepção política por que passa a nação brasileira.Como o escravismo e a servidão, um dia o capitalismo também será apenas um registro triste do passado! E os cristãos conscientes participarão da construção do futuro!

Dom Robinson Cavalcanti é bispo da Diocese Anglicana do Recife

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

SE CAMINHAR É PRECISO

(Simei Monteiro)

Se caminhar é preciso, caminharemos unidos
E nossos pés, nossos braços, sustentarão nossos passos.
Não mais seremos a massa, sem vez, sem voz, sem história,
Mas uma Igreja que vai em esperança solidária.

Se caminhar é preciso, caminharemos unidos
A nossa fé será tanta que transporá as montanhas.
Vamos abrindo fronteiras onde só havia barreiras.
Pois somos povo que vai em esperança solidária.
Se caminhar é preciso, caminharemos unidos
E o Reino de Deus teremos como horizonte da vida.
Compartiremos as dores, os sofrimentos e as penas
Levando a força do amor em esperança solidária.
Se caminhar é preciso, caminharemos unidos
E nossa voz do deserto fará brotar novas fontes.
E a nossa vida na terra será entrevista nas festas.
É Deus que está entre nós em esperança solidária

NESTE PÃO E NESTE VINHO

Flávio Irála

Neste pão e neste vinho, o suor de nossas mãos:
O trabalho e a justiça para todos os irmãos.

Ofertamos, ó Senhor, os sofrimentos dos pequenos e dos pobres, teus amados

Dos que lutam à procura de trabalho, das crianças e anciãos abandonados.
Ofertamos a firmeza e a coragem dos que lutam em favor dos oprimidos.
Dos famintos e sedentos de justiça e que são por tua causa perseguidos.
Ofertamos, ó Senhor, toda a certeza na vitória do amor sobre o pecado.
Tua luz há de brilhar, vencendo a treva sobre o mundo convertido e renovado.

Megalópolis

João Dias Araújo

Nesta grande cidade vivemos,
Onde muitos estão a lutar;
Entre insônia e o trabalho constante
Para o pão cotidiano ganhar
Nesta grande cidade que cresce,
Há milhares sem fé sem amor,
Que precisam da graça de Cristo
Pra viver uma vida melhor
Nesta grande cidade
Há milhares sedentos de luz;
Multidões sem ouvir a mensagem
Do poder salvador de Jesus
Cresce, cresce cidade gigante!
Crescem fábricas, arranha-céus!
Mas não podes crescer desprezando
O Evangelho do Cristo de Deus
Nesta grande cidade onde há crimes
Onde há fome dinheiro e desilusão,
Nós, os filhos de Deus, fomos postos
Como luz a indicar salvação

Justiça Social





(João Alexandre)

A gente não precisa ser milionário
A gente só quer um justo salário
A gente tem que levar fé no trabalho aqui
A gente não precisa criar quizumba
A gente quer sinceridade profunda
Alguém vai ter que por moral nessa casa aqui
Se deu muito feijão falta no prato
Se deu muita batata cadê o ensopado?
Queremos a fatia de um bolo que a gente fez!
É só distribuir a coisa direito
E repartir o lucro também com o sujeito
Que quase se suicida no fim do mês
É hora de se procurar a saída
Todo esse egoísmo acaba com a vida
Quem dera que a gente ouvisse o que Cristo diz
O que Cristo diz...É hora de se procurar o que Cristo diz

Em nome da justiça (João Alexandre)



Enquanto a violência acabar com o povão da baixada
E quem sabe tudo disser que não sabe de nada
Enquanto os salários morrerem de velho nas filas
E os homens banirem as leis ao invés de cumpri-las
Enquanto a doença tomar o lugar da saúde
E quem prometeu ser do povo mudar de atitude
Enquanto os bilhetes correrem debaixo da mesa
E a honra dos nobres ceder seu lugar à esperteza.
Não tem jeito não.

Só com muito amor a gente muda esse país
Só o amor de Deus pra nossa gente ser feliz
Nós os filhos Seus temos que unir as nossas mãos
Em nome da justiça, por obras de justiça
Quem conhece a Deus não pode ouvir e se calar
Tem que ser profeta e sua bandeira levantar
Transformar o mundo é uma questão de compromisso
É muito mais e tudo isso.

Enquanto o domingo ainda for nosso dia sagrado
E em Nome de Deus se deixar os feridos de lado
Enquanto o pecado ainda for tão somente um pecado
Vivido, sentido, embutido, espremido e pensado
Enquanto se canta e se dança de olhos fechados
Tem gente morrendo de fome por todos os lados
O Deus que se canta nem sempre é o Deus que se vive,não
Pois Deus se revela, se envolve, resolve e revive
Não tem jeito não, não tem jeito não. ( Bis )

Que estou fazendo se sou cristão?



João Dias Araújo

Que estou fazendo se sou cristão? Se Cristo deu-me o seu perdão!
Há muitos pobres sem lar, sem pão, Há muitas vidas sem salvação.
Meu Cristo veio prá nos remir: O homem todo sem dividir.
Não só a alma do mal salvar, Também o corpo ressuscitar.
Há muita fome em meu país, Há tanta gente que é infeliz,
Há criancinhas que vão morrer, Há tantos velhos a padecer.
Milhões não sabem como escrever, Milhões de olhos não sabem ler
Nas trevas vivem sem perceber Que são escravos de outro ser.
Aos poderosos eu vou pregar Aos homens ricos vou proclamar
Que a injustiça é contra Deus E a vil miséria insulta aos céus.

Socialismo cubano e a igualdade

Jung Mo Sung *

Na conclusão da primeira sessão ordinária da Assembléia Nacional de Cuba, o general de Exército Raul Castro, o presidente dos Conselhos de Estado e de Ministros, (essa é a forma como o jornal Granma o apresenta), pronunciou o discurso intitulado "Socialismo significa justiça social e igualdade, mas igualdade não é igualitarismo".
Antes de entrarmos na reflexão propriamente dita sobre alguns pontos desse discurso, precisamos nos lembrar que, quando falamos sobre Cuba e o seu socialismo no meio das esquerdas ou grupos anticapitalistas latino-americanos, sempre há uma mistura do "Cuba-real" com o "Cuba-mito". A visão mítica sobre a revolução e o socialismo cubanos tende a nos levar a subestimar os problemas, dificuldades, equívocos e erros enfrentados e cometidos lá -como ocorre em todos os lugares- e superestimar os seus avanços sociais, que são inquestionáveis.
Essa postura "apologética" é perfeitamente compreensível em debates políticos polarizados entre os pró-capitalistas e pró-socialistas ou anticapitalistas, mas isso não nos ajuda muito na construção de um modelo ou um projeto de sociedade pós-capitalista. Muito pelo contrário, postura apologética -seja política ou religiosa- inibe uma verdadeira consciência crítico-construtiva.
A construção de um projeto ou de uma imaginação de uma outra sociedade é fundamental também para pessoas e grupos que estão enfocando a sua ação e atenção para problemas mais locais e imediatos. Pois não se pode fazer uma crítica real e construtiva da realidade em que vivemos se não possuímos um projeto ou, pelo menos, uma imaginação de uma outra sociedade. É esse modelo ou imaginação que nos dá critérios e bases para as críticas.
Uma das dificuldades que as comunidades e grupos sociais que lutam em favor dos pobres e oprimidos enfrentam hoje é exatamente a ausência de um modelo alternativo de sociedade após a queda do bloco socialista. Essa ausência ou a falta de maior clareza do tipo de sociedade que queremos leva muitos grupos a se focarem somente no local e imediato - perdendo de vista os objetivos a médio e a longo prazo -, ou então a assumirem discursos extremamente vagos e genéricos que não oferecem diretrizes ou pistas de ação no campo macro-social ou político.
Nesse trabalho, que já vem sendo realizado por muitos grupos e redes (Fórum Social Mundial é um exemplo), as experiências históricas e reflexões teóricas em torno do socialismo não podem ser ignoradas. Por tudo isso, eu penso que vale à pena refletirmos, mesmo que rapidamente sobre alguns pontos do discurso de Raúl Castro.
A idéia central do discurso aparece já no seu título e é retomado no meio do discurso quando ele fala do problema do baixo salário dos trabalhadores e da nova Lei de Segurança Social:

"Socialismo significa justiça social e igualdade, mas igualdade de direitos, de oportunidades, não de renda. Igualdade não é igualitarismo. Este, em última instância, é também uma forma de exploração: a do bom trabalhador por aquele que não é, ou pior ainda, por um vagabundo".
Eu não quero entrar aqui em discussão mais técnica ou econômica sobre esse problema do salário e da produtividade e eficiência que Raúl Castro menciona antes dessa afirmação (será tratado no próximo artigo), mas quero chamar atenção para o conceito de "igualdade". Se a igualdade buscada não é a igualdade de renda, mas de direitos e oportunidades, isso significa que, para R. Castro, a desigualdade social ou a desigualdade de renda e riqueza não é incompatível com o socialismo. Mais do que isso, a busca da igualdade de renda se transforma em outra forma de exploração.
Está Raul Castro perdendo sua "radicalidade" revolucionária? É difícil dizer. Mas, eu penso que ele está raciocinando a partir de alguns princípios "realistas". Por exemplo, ele reconhece que vícios como a indisciplina, que reduz a produtividade e eficiência no trabalho, existe entre os quadros e trabalhadores e que "há de estar consciente de que cada aumento de salário que se aprove ou preço que se estabeleça deve corresponder com as possibilidades da economia".
Os seres humanos não são perfeitos e a economia tem suas "leis" que são mais fortes que a vontade humana ou política. O governo cubano reconhece que o salário não é suficiente para satisfazer de modo digno as necessidades da população, mas ao mesmo tempo sabe que não basta aumentar o salário dos trabalhadores ou abaixar os preços da cesta básica por um decreto se a produção não acompanhar essa variação. O que o governo está assumindo é que sem incentivos ou formas de remuneração que gere desigualdade social não é possível aumentar a produção no nível desejado. Por isso, a defesa da igualdade socialista como a igualdade de direito e de oportunidade, e não como "igualitarismo".
É uma visão de socialismo que não é o do "socialismo real" que ruiu, mas pode ser visto como um socialismo "realista".

No artigo anterior, Socialismo cubano e a igualdade, começamos uma reflexão sobre a afirmação feita pelo Raul Castro, no dia 11/07/08, na conclusão da primeira sessão ordinária da Assembléia Nacional de Cuba: "Socialismo significa justiça social e igualdade, mas igualdade de direitos, de oportunidades, não de renda. Igualdade não é igualitarismo. Esse, em última instancia, é também uma forma de exploração: a do bom trabalhador pelo que não é, ou pior ainda pelo vagabundo."
Essa precisão do conceito de igualdade, diferenciando-o do igualitarismo, é resultado não somente de discussões e reflexões filosóficas ou ideológicas, mas também da pressão da realidade econômica e social cubana.
Após a revolução, com mudanças no sistema econômico e alto investimento em programas sociais (na área de educação, saúde, moradia, etc), a expectativa de vida em Cuba aumentou de 59 anos para 77 anos. Com esse grande avanço social, Cuba passou a enfrentar um novo tipo de problema. Agora, as pessoas que se aposentam vivem mais quase 20 anos. Se adicionarmos a isso uns 20 anos de vida antes do ingresso no mundo do trabalho profissional, temos uma situação em que, como diz R. Castro. "durante um período superior aos 40 anos, algo mais da metade da expectativa de vida de um cubano, todos os gastos em que incorrem são assumidos pelos que trabalham". E como o índice de natalidade tem caído em Cuba, esse número de trabalhadores também tem diminuído.
Isso significa que esse modelo só é sustentável na medida em que há um aumento da produtividade no sistema produtivo e um uso eficiente dos recursos econômicos capazes de sustentar o alto gasto do Estado nos programas sociais e o consumo das pessoas abaixo e acima da idade do trabalho profissional. Esse exemplo nos mostra como o avanço social gera novos problemas e pressões no campo econômico.
Para que os trabalhadores possam receber um salário justo, um salário que corresponda ao seu trabalho e que possa propiciar uma vida digna é preciso, segundo R. Castro, que se cumpra as seguintes condições: a) que o trabalho realmente contribua ao que todos depois demandam receber; b) "ordem, controle e rigorosa exigência que assegurem eficiência, poupança e evitem roubos ou desvios de recursos"; c) "eliminar as gratuidades indevidas e o excesso de subsídios" (este para ser um ponto importante e polêmico, pois ele enfatiza o ponto dizendo logo a seguir: "Repito, eliminar as gratuidades indevidas e o excesso de subsídios"; d) "um adequado sistema de impostos e contribuições" para sustentar os serviços gratuitos ou fortemente subsidiados e financiar atividades como a defesa, a segurança e a ordem pública.
Essa lista de condições mostra, na perspectiva do governo, as dificuldades e os problemas que a economia e a sociedade cubana estão enfrentando. A necessidade de "ordem, controle e rigorosa exigência que assegurem eficiência, poupança e evitem os roubos" mostra que há um problema estrutural tanto nos procedimentos quanto na cultura da máquina estatal. Já há tempos a população e o próprio governo vêm falando dessas questões, mas parece que agora isso se tornou uma questão vital. Ineficiência, roubo e desvios de recursos para fins não devidos estão colocando o sistema econômico-social-político cubano em condições extremamente vulneráveis. Tanto que, R. Castro diz: "Agora se impõe mais do que nunca investir nossos limitados recursos com racionalidade, essencialmente na obtenção de utilidades que permitam custear os já elevados gastos sociais do país".
Estamos tratando aqui de problemas estruturais internos ao Cuba, sem falar no já famoso bloqueio comercial imposto pelos Estados Unidos. Em resumo, os problemas estruturais têm origens interna e externa.
Na medida em que o Estado -que controla a maior parte da economia- enfrenta sérios problemas econômicos, uma conseqüência é a necessidade ou a pressão para a eliminação de serviços gratuitos e a diminuição de subsídios -todos financiados pelo Estado. Isso significa na prática um aumento no custo de vida da população, pois ela passa a pagar por serviços antes gratuitos ou a pagar mais por serviços e bens que têm subsídios diminuídos. Aumento no custo de vida gera pressão para o aumento dos salários -que na grande maioria também são controlados pelo Estado. Por isso, R. Castro diz: "voltando ao tema do salário, todos quiséramos ir mais rápido, mas é necessário atuar com realismo". Isto é, a vontade política não pode sobrepor ao realismo econômico, pois isto simplesmente geraria inflação e desabastecimento.
Não é possível, na atual situação cubana, aumentar os salários sem aumentar a produtividade na área produtiva e a eficiência na administração do Estado. E para aumentar a produção, surge a necessidade de incentivos. O que o discurso deixa claro é: incentivos e discursos "morais" ou "ideológicos" não são mais suficientes. É preciso assumir que os incentivos econômicos, que resultam em diferenças de renda e riqueza, fazem parte das dinâmicas econômicas, seja no capitalismo, seja no socialismo. Parece que isso faz parte da condição humana.
Essas são razões que explicam, pelo menos em parte, o tema central do discurso: o socialismo significa igualdade de oportunidade e de direito, e não de renda; a igualdade não é igualitarismo. O igualitarismo, além de significar uma outra forma de exploração, coloca em risco econômico o próprio sistema socialista.

No artigo anterior, "socialismo cubano e a igualdade" http://www.adital.com.br/site/noticia.asp?lang=PT&cod=34063 , vimos que o avanço na área social criou uma pressão na área econômica que não pode ser resolvida somente através de uma vontade política. Em outras palavras, a vontade política tem que se ver diante do realismo econômico. Por isso, a necessidade de aumento na produtividade e na eficiência da administração do Estado fez Raul Castro colocar no centro do seu discurso a idéia de que "Socialismo significa justiça social e igualdade, mas igualdade de direitos, de oportunidades, não de renda. Igualdade não é igualitarismo. Esse, em última instancia, é também uma forma de exploração: a do bom trabalhador pelo que não é, ou pior ainda pelo vagabundo".
No fundo estamos enfrentando aqui a tensão entre objetivos políticos solidários, (como a de construir uma sociedade em que todos/as tenham igualmente uma vida material e espiritual digna e prazerosa), e a realidade da escassez dos recursos humanos, materiais e de conhecimento. Por isso, Raúl Castro diz: "No socialismo é indispensável que nos planos econômicos a alocação de recursos se ajuste estritamente a receitas disponíveis. Não podemos aspirar que 2 mais 2 sejam 5; 2 mais 2 são 4; mais bem às vezes no socialismo 2 mais 2 dá 3."
À primeira vista, para muitas pessoas e grupos que lutam por uma "sociedade igualitária", sem ricos e pobres, esse "realismo" de Raul Castro pode parecer, no mínimo, uma "fraqueza ideológica" ou a perda da "verdadeira" utopia. Alguns meses atrás, um conhecido teólogo da libertação defendeu, em um artigo publicado aqui na Adital, a tese de que devemos passar do capital material ao capital espiritual. Pois para ele o capital material tem limites e se exaure, enquanto que o capital espiritual (como o amor, a cuidado, a criatividade) seria ilimitado e inexaurível. Além dessa abundância sem limites, o capital espiritual não seria movido pela razão instrumental (por ex., o problema da produtividade e eficiência na economia), mas sim pela razão cordial e sensível que organizaria a nova vida social e a nova forma de produção.
Essa proposta parece-me muito atraente e bela. Para dizer a verdade, bela demais para ser real. A economia, como ciência e prática social, pressupõe a noção de escassez. Onde não há escassez não há necessidade de economia e não há bens econômicos. Por exemplo, como o ar que respiramos não é ainda escasso, ele não é considerado um bem econômico e não entra nas relações de compra e venda ou de controle econômico por parte do Estado socialista. Há escassez quando a oferta de um bem não suficiente para atender as necessidades ou desejos das pessoas ou consumidores.
O problema imediato dos pobres de todos os lugares não é a falta de cordialidade e amor (não que não sejam importantes na vida), mas é a carência de bens materiais indispensáveis para uma vida digna, trais como comida, leite, água potável, saneamento básico, remédios, casa, etc. E o que a realidade nos mostra é que esses bens materiais e os meios para produzi-los são escassos na vida concreta dos povos pobres e de muitos países, como Cuba. Valores éticos como solidariedade são fundamentais na vida das pessoas e das sociedades e devem estar presentes na organização da vida social e da produção econômica. Mas, é preciso encontrar uma forma concreta de organização econômico-política que seja eficiente suficiente para produzir e distribuir os bens materiais necessários para toda a população de um país e também do planeta. É aqui que entra em discussão a questão do capitalismo versus socialismo, ou algum outro tipo de sociedade.
É só quando colocamos na discussão a noção de escassez e relações de conflito que ocorrem no campo da produção e distribuição que a noção de igualdade deixa de ser abstrata e se torna uma discussão concreta. Em termos abstratos, a igualdade socialista ou a igualdade buscada por cristãos que lutam por Reino de Deus pode ser entendida como a igualdade de renda e riqueza. Mas, quando enfrentamos o problema da baixa produtividade e ineficiência administrativa, descobrimos que o "igualitarismo" pode se tornar uma outra forma de "exploração" (no dizer de R. Castro) e um empecilho para a superação da pobreza e da injustiça social.
Isso não quer dizer que não há diferenças entre a noção de igualdade no capitalismo e no socialismo cubano. Mesmo que, no nível mais abstrato, os dois sistemas assumam a mesma tese de que a igualdade significa a igualdade de direitos e oportunidades, no nível concreto há uma diferença fundamental. No capitalismo, essa igualdade é buscada através da democracia formal ("uma pessoa, um voto") e do sistema de mercado, enquanto no socialismo cubano (estou me referindo aqui só ao cubano para não entrar em discussão sobre vários tipos de socialismos existentes e possíveis) o Estado tem um papel importante no planejamento e organização da sociedade e da economia para garantir que todas as pessoas possam alcançar pelo menos um patamar de uma vida digna e assim tenham a igualdade real no que concerne a direitos e oportunidades. Nesse sentido, R. Castro diz: "a harmonia na planificação e na organização é essencial no socialismo. Sua ausência pode conduzir a um caos mais perigoso que o característico do capitalismo, onde as leis do mercado acabam por estabelecer certa ordem e equilíbrio, ainda que seja a custo de sacrifício de bilhões de seres humanos a escala mundial".
O desafio para o povo cubano e para todos que sonham com uma sociedade mais justa é a criação de um sistema político-econômico que seja marcado pela solidariedade e cuidado e seja, ao mesmo tempo, eficiente para atingir esses objetivos.

(Autor de, entre outros livros, "Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social". Ed. Paulus)

Eles tinham tudo em comum

Jung Mo Sung

Complementando o artigo anterior (Cristianismo de libertação XI: os dez mandamentos e os pobres), eu quero propor aqui uma breve reflexão sobre um dos textos bíblicos (At 4, 32-35) que mais inspiram as pessoas que, em nome da fé cristã, lutam por uma sociedade mais justa e solidária,:
"A multidão dos que haviam crido era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava exclusivamente seu o que possuía, mas tudo entre eles era comum.Com grande poder os apóstolos davam o testemunho da ressurreição do Senhor, e todos tinham grande aceitação.Não havia entre eles necessitado algum. De fato, os que possuíam terrenos ou casas, vendendo-os, traziam os valores da venda (v. 34) e os punham aos pés dos apóstolos. Distribuía-se, então, a cada um segundo sua necessidade."

É um texto fascinante, rico e complexo. Duas perguntas surgem de imediato: a) o que faz uma multidão de pessoas se tornarem um só coração, uma comunidade tão unidade a tal ponto de chegarem a ter tudo em comum?; b) por que Lucas "mistura" em um único texto dois assuntos aparentemente tão distintos, o testemunho da ressurreição (uma questão religiosa) e a nova forma de organização econômica?
O coração do texto e da própria comunidade é a fé na ressurreição de Jesus. A multidão mudou a sua maneira de ver o mundo e de viver porque creu na ressurreição daquele que morreu na cruz por pregar a boa-nova aos pobres. Sem a fé na ressurreição, não haveria sentido e nem força espiritual para vencer o egoísmo e o desejo de acumulação pessoal e viver a vida da comunidade, partilhando para que todos pudessem ter uma vida digna, sem passar necessidades. Ao mesmo tempo, sem esta encarnação em um modelo alternativo de vida (incluindo as questões econômicas), não é possível viver a fé na ressurreição. É por isso que Lucas coloca a narrativa do testemunho da ressurreição "abraçada" por duas narrativas paralelas que falam de como a multidão se transformou em comunidade, vive os ideais de Jesus tendo tudo em comum.
Como a tradição da "esquerda" moderna sempre enfatizou a noção de igualdade social, é importante frisar que no texto do livro dos Atos dos Apóstolos o objetivo não é a igualdade, mas sim que não houvesse necessitados entre eles. Porque para eles o mais importante era que todos tivessem uma vida digna, mais do que a igualdade. Também porque podemos pensar em uma situação de igualdade social onde todos passam necessidades.
Quando lemos este texto isoladamente, corremos um sério risco de pensarmos que este modelo social foi vivido plenamente, sem grandes problemas. É a eterna tentação de crermos que existem soluções ou modelos sociais alternativos "perfeitos", sem problemas. Mas este não foi o caso da comunidade de Jerusalém, como não é nenhum dos casos. Logo após a descrição do ideal da comunidade, Lucas nos fala da generosidade de Barnabé e também da tentativa de fraude de Ananias e Safira (At 5,1-11). Ele não quer nos deixar na ilusão e quer mostrar como as pessoas reais das comunidades concretas são ambíguas.
Além deste problema no âmbito pessoal-espiritual, Lucas narra que o aumento do número dos discípulos criou um outro problema (At 6,1-6). Quando a comunidade é pequena, todas as pessoas se conhecem e as coisas se ajeitam mais facilmente. Mas, quando ela se torna numerosa, é preciso criar mecanismos de operacionalização dos ideais e dos valores que nem sempre funcionam bem. Os cristãos de origem helênica estavam reclamando porque as suas viúvas recebiam as distribuições diárias só depois das hebréias. Provavelmente porque os "distribuidores" eram hebreus. A solução foi a de eleger também alguns helênicos para esta tarefa. Sucesso na pregação e o aumento da comunidade criam novos problemas que exigem adequações no campo administrativo-operacional.
Depois dos problemas na esfera pessoal e na administrativa, veio a crise estrutural: quando a distribuição é maior do que a entrada ou a produção de recursos, chega uma hora em que os bens acabam e a fome se generaliza na comunidade de Jerusalém. Sem produção suficiente, não se pode consumir ou distribuir. O espírito de comunidade nascido da fé em Jesus Cristo levou comunidades cristãs de outras regiões fazerem doações para minorar esta fome.
Mais um detalhe fundamental nesta experiência comunitária: o modelo de vender os bens e partilhar o dinheiro na comunidade só foi possível porque havia um mercado funcionando onde pudesse vender as casas e comprar comida e outros bens necessários na vida diária. A partilha na comunidade era um contraponto profético contra a lógica do Império.
Apesar destes problemas e limites no campo pessoal, administrativo e econômico-estrutural, a comunidade de Jerusalém continua sendo um exemplo para nós de como devemos sempre buscar encarnar, em modelos econômico-sociais alternativos ao opressivo dominante, a nossa fé na ressurreição e os valores ensinados por Jesus.
Hoje somos chamados a assumir este desafio de propor e testemunhar modos alternativos de vida e de organização social. Modos estes que precisam ser continuamente criticados e melhorados em nome da boa-nova de libertação aos pobres e oprimidos/as. Sem isso, o testemunho da fé na ressurreição torna algo vazio, um coração sem um corpo para animar, para vivificar.

Os dez mandamentos: os pobres

Jung Mo Sung

Quando falamos da preocupação que quase todos os setores do cristianismo dizem ter com os pobres, precisamos ter claro que nem todos estão falando da mesma coisa. Eu penso que, neste assunto, pelo menos três pontos diferenciam o cristianismo de libertação de outras formas de conceber e viver o cristianismo.
A primeira diferença se dá na compreensão do problema da pobreza. Para o cristianismo de libertação, a pobreza não é uma questão meramente pessoal ou conjuntural, mas é um problema estrutural, resultado da própria estrutura econômico-social na qual vivemos. Por isso, luta em duas frentes: a) na promoção de reformas econômicas e no avanço de políticas sociais visando promover melhorias na vida dos pobres no interior do atual sistema econômico; (b) nas lutas políticas e sociais em âmbitos regional, nacional e mundial visando mudanças significativas na estrutura do atual sistema capitalista global. Pois crê que sem estas mudanças estruturais não é possível a superação da atual situação de gritante exclusão social de uma grande parcela da população mundial.
A segunda diferença se dá na compreensão do papel dos pobres. Há setores importantes do cristianismo preocupados com o problema da pobreza que vêem os pobres apenas como beneficiários passivos, objetos da ação por parte das Igrejas e dos cristãos. Cristianismo de libertação, por sua vez, se soma àqueles grupos que vêem os pobres como sujeitos participantes da mesma luta. Nesta caminhada não deve haver "nós" e "eles (os pobres)", mas sim um único e mesmo espírito que nos move todos juntos em busca da liberdade e libertação. O que está em jogo não é somente um problema econômico-material, mas também a afirmação da dignidade humana deles e de todas as pessoas que se juntam solidariamente à luta. É na experiência de assumir e fazer parte desta luta que a dignidade humana é afirmada e podemos experienciar a presença do Espírito do Ressuscitado entre nós.
A terceira diferença se dá na relação entre a fé cristã e a preocupação ou luta social. Para muitos, a ação social é ou deve ser uma aplicação da fé e das doutrinas religiosas no campo social. Neste sentido, seria recomendável que todas pessoas cristãs tivessem também uma preocupação com os pobres, mas esta seria uma questão secundária, uma aplicação. O mais importante, o essencial, seria a adesão pessoal à pessoa de Jesus Cristo. Além da separação entre os âmbitos pessoal e o social, haveria também uma distinção entre a fé-espiritualidade e o compromisso social. Para o cristianismo de libertação, esta separação entre o pessoal e o social não se sustenta, assim como não é possível realmente aderir pessoalmente à pessoa de Jesus Cristo (a fé) sem ao mesmo tempo assumir uma postura social em favor dos pobres. A opção pessoal pela defesa da vida dos pobres não é uma mera aplicação facultativa da fé, mas uma parte essencial dela.
Para desenvolver melhor esta idéia, quero comentar aqui rapidamente um dos pilares da tradição bíblica e do próprio cristianismo, os dez mandamentos. Eu vou tomar a versão do livro de Deuteronômio (Dt 5, 6-21), na forma organizada pela Igreja Católica. (No próximo artigo, eu vou complementar a reflexão comentando uma passagem do Atos dos Apóstolos)
Eu penso que o coração do decálogo está no 5º. Mandamento (na tradição protestante, o 6º.): "Não matarás!". Deus faz a Aliança com o seu povo para que este defenda a vida - o dom que recebemos de Deus desde o início da criação - contra as forças da morte que oprimem o povo e nega o direito à vida. Para que a defesa da vida seja concreta, o decálogo nos apresenta outros dois mandamentos como uma primeira proteção: "Honra teu pai e tua mãe" (4º.) e "Não cometerás adultério" (6º.). Estes dois mandamentos se referem à família, o primeiro e o fundamental ambiente onde a vida floresce. O filho forte e produtivo deve honrar e cuidar dos seus pais mesmo na velhice, pois a força não pode ser um critério que sobrepõe às relações humanas e sociais éticas. Assim como o compromisso com o cônjuge - com o qual se inicia a família - não pode ser negado por puro instinto ou desejo sexual que não quer reconhecer limites.
Entretanto, a vida não pode ser defendida pela família se as condições econômicas e sociais não lhe permitem. Por isso, os dois mandamentos sobre a família, que "abraçam" a defesa da vida, vêm abraçados por outros dois que defendem os seus direitos trabalhistas e sociais: "Guardarás o dia de sábado (...) Não farás nenhum trabalho (...) nem teu escravo, nem tua escrava (...) Recorda que foste escravo no Egito (...)" (3º.) e "Não roubarás" (7º.) Uma família não pode sobreviver somente com amor e honra, mas é preciso que os frutos do seu trabalho não lhes sejam roubados pelos mais fortes e poderosos, e que tenha o direito ao trabalho e ao descanso.
O problema é que o povo de Israel - como nós - já vive em uma situação em que se explora os direitos dos trabalhadores e dos pobres. Como estes não têm força bruta para reagir contra os poderosos, só lhes resta ir ao tribunal reclamar os seus direitos. Porém, os poderosos de todas as épocas costumam comprar falsos testemunhos e manipular doutrinas religiosas para esconder e legitimar os seus pecados e crimes. Por isso, os mandamentos dos direitos dos trabalhadores vêm abraçados por dois outros: "Não pronunciarás em vão o nome de Deus" (2º.) e "não dará falso testemunho contra o teu próximo" (8º.)
Mas por que as pessoas são capazes de tanta maldade e mentira para acumular mais do que precisam? É porque as pessoas não buscam o que necessitam, mas o que desejam, o que cobiçam. Por isso, o decálogo diz ao final "Não cobiçarás a mulher do teu próximo; nem desejarás para ti a casa do teu próximo, nem o seu campo ..." (9º e 10º.) Nós somos seres que desejamos possuir o que é do outro, para isso somos capazes de explorar, roubar, mentir, adulterar e matar. Para mudar isto é preciso uma conversão espiritual no mais fundo do nosso ser. Esta é a razão porque o outro mandamento que possibilita o "abraço" é: "Eu sou Iahweh teu Deus, aquele que te fez sair da terra do Egito, da casa da escravidão. Não terás outros deuses diante de mim" (1º).
Para o cristianismo de libertação, não há separação entre a espiritualidade, a defesa da família, a luta pelos direitos econômicos e sociais dos trabalhadores e dos pobres, a afirmação da verdade e a luta contra a idolatria e manipulação religiosa. Afinal, não podemos viver a nossa fé sem defender a vida, o maior dom que recebemos, sem lutar em todos os campos que de modo interligados e interdependentes afetam as nossas vidas.

quinta-feira, 24 de setembro de 2009

Socialismo em debate

Jung Mo Sung

Felizmente o tema do socialismo volta à discussão! É claro que há grupos que, mesmo após a derrocada do bloco socialista, não deixaram de pregar, anunciar e discutir - muitas vezes de modo dogmático - o socialismo como a única saída possível para a "barbárie capitalista". Mas, muitos se afastaram dessa discussão, até como uma forma de se preservar da dor da frustração frente às esperanças depositadas nesse sistema econômico-social que se sucumbiu (ou parecer ter sucumbido) frente ao capitalismo. Com isso, muitas das propostas de alternativas passaram a ser formuladas em termos muito abstratos, marcados quase que exclusivamente por valores éticos e ecológicos, sem muita preocupação com o "desenho institucional e econômico-político". E sem diretrizes que mostrem ou indiquem o formato institucional da política e economia, essas propostas genéricas não oferecem critérios para orientar as nossas lutas e ações sociais e políticas.
Afirmações do tipo "a nova sociedade será espiritual e viverá em harmonia com todos os seres vivos e com o Planeta" são importantes para manter o horizonte de desejo, mas não oferecem direções e critérios para lutas concretas. Com isso, surge uma distância grande entre esses discursos cheios de desejos bons e as lutas e ações locais concretas. Por isso, eu afirmei que felizmente o tema do socialismo está voltando a ser discutido em setores comprometidos com a causa da vida dos pobres e dos dominados. Um exemplo disso é a publicação nos últimos dias, no Adital, de dois artigos que merecem ser lidos e discutidos ("Estatismo é a alternativa?", de Manfredo A. Oliveira e "Socialismo, contradições e perspectivas", de Frei Betto).
Eu penso que não poderemos construir um novo projeto de sociedade e de civilização sem retomarmos as discussões sobre o socialismo, os seus erros e acertos, suas semelhanças e diferenças com o capitalismo, seus potenciais e limites. Dessa discussão podemos reafirmar o socialismo como uma alternativa ao capitalismo ou "inventar" outro projeto, mas não podemos evitar essa discussão. E espaços como Adital pode ser um lugar para esse tipo de debate.
E a importância desse debate se mostra mais claro se levarmos em consideração que até Joseph Stiglitz, prêmio Nobel de Economia, escreveu nos últimos dias que a atual crise econômica deixará como um dos legados "uma batalha de alcance global em torno de idéias [...] em torno de que tipo de sistema econômico será capaz de trazer o máximo de benefício para maior quantidade de pessoas". E que "em boa parte do mundo, [...], a batalha entre capitalismo e socialismo - ou ao menos entre o que muitos estadunidenses consideram socialismo - segue na ordem do dia" ("As mensagens tóxicas de Wall Street").
Uma primeira pergunta que pode aparecer na discussão sobre a alternativa ao capitalismo é: qual é a diferença fundamental entre o capitalismo e socialismo? Uma das idéias bastante difundida sobre esse assunto - entre "a esquerda pós-moderna e/ou ecológica" e até mesmo nos setores da "esquerda cristã" - é que não haveria muita diferença entre esses dois sistemas econômico-social-político. Os dois seriam "filhos da modernidade" e que, por isso, eles teriam o mesmo objetivo de aumento da produção (com a conseqüente destruição da natureza). A principal e talvez a única diferença seria que a propriedade dos meios de produção está na mão das empresas privadas no capitalismo e na mão do Estado no socialismo. Para alguns, o socialismo teria caído no "engodo do capitalismo" ou teria preservado as principais características do capitalismo e substituído somente a propriedade privada pela estatal.
Eu penso que essas críticas têm uma boa parte da razão, mas não capta um ponto essencial. Apesar das semelhanças, há uma diferença fundamental entre os dois sistemas sociais. No capitalismo, toda o sistema de produção, distribuição e consumo está guiado pela lógica da mercadoria ou pelo "valor de troca". Isto é, as empresas produzem bens, não em função da sua utilidade na reprodução da vida na sociedade ("valor de uso"), mas em função do seu valor de troca, isto é, para atender os desejos dos consumidores. Nas palavras de um dos economistas mais influentes no séc. XX, Paul Samuelson, "as mercadorias vão para onde há maior número de votos ou de dólares. O cachorro pertencente a John D. Rockfeller pode receber o leite de que uma criança pobre necessita para evitar o raquitismo". Criança pobre necessita do leite, mas como ela não é consumidora não faz parte do mercado, para onde os bens são produzidos. É assim que o sistema funciona, e o empresário não tem opção: no sistema capitalista ele tem que obedecer às leis do mercado (ou "as leis do valor").
O socialismo é um sistema pensado para "dominar" essa lei do valor e pensar a produção e a distribuição dos bens em função da reprodução da vida social. Por isso, por ex., em Cuba antes da crise pós-derrocada do bloco socialista havia escolas e hospitais para toda população, mas poucos restaurantes e quase nenhuma loja de bens de consumo considerados pelo Estado como supérfluos. O Estado apropriou-se de (quase) todos os meios de produção para poder planejar a economia em função do "valor de uso" e das necessidades da população e do regime.
O problema é que os modelos de socialismo implantados nos mais diversas partes do mundo geram também totalitarismo e ineficiência produtiva, gerando uma sociedade submetida ao Estado (que aparece por ex. na ausência da sociedade civil organizada) e a escassez de bens de consumo e de serviços necessários para a reprodução da vida corporal de forma digna e prazerosa.
Os erros e problemas dos sistemas socialistas que existiram ou ainda existem no mundo devem ser assumidos para aprendermos com a história, mas não podemos ignorar a diferença fundamental (pelo menos em termos teóricos e de valores que nortearam os principais teóricos e revolucionários socialistas) entre a lógica capitalista e a lógica de um sistema (qualquer que seja o nome que venha a ter) que procura colocar a reprodução da vida de todas as pessoas como o princípio norteador da organização econômica, social e política.
[Autor de "Cristianismo de libertação: espiritualidade e luta social", Ed. Paulus].

terça-feira, 22 de setembro de 2009

UMA MISSA PELO PLANALTO

Marcos Monteiro*

“O homem é a medida de todas as coisas; das que são enquanto são e das que não são enquanto não são”.

Na história das frases ocidentais, essa pode ser considerada geradora da própria história. Frase de Protágoras, classificado como sofista, mas respeitado por Platão, aponta para a diversidade de percepção e construção racional, que coloca a verdade em facetas tão múltiplas quão múltiplos são os seres humanos, para desespero das convicções fundamentalistas.Aliada à mesma, a frase de Heráclito, “tudo flui”, lembra que os rios mudam e mudam as pessoas, de modo que não se pode mergulhar duas vezes no mesmo rio. A mudança, conflitiva ou harmônica, está no seio da totalidade, como condição de processos globais, como percebe a dialética hegeliana ou marxista, dentro de seus próprios limites de percepção.A mudança, portanto, seria histórica e geográfica, pertencente ao espaço-tempo, dentro de suas complexas relações. Isso confirmaria a noção de impermanência tão cara ao sistema budista. Entretanto, a própria dialética clama pelo seu oposto e só podemos falar em mudanças se algo permanece, mesmo que seja a estrutura mutante, ou as relações. Portanto, ser e não-ser, repouso e movimento, permanência e impermanência, caracterizam a estrutura global da vida e do universo, necessitando cada um do seu oposto, cada afirmação da sua negação. Dizendo de outro modo, as narrativas mudam, mas as frases permanecem.Dessa maneira, podemos sempre dizer com Shakespeare que “há algo podre no Reino da Dinamarca”, ou com o nosso Barão do Itararé, “há alguma coisa no ar, além dos aviões supersônicos” ou dos caças militares que adquirimos dos franceses. Nos interstícios do poder, há sempre algum motivo escuso, algum segredo oculto, algum objetivo não muito ético. De modo que podemos afirmar um pouco desesperançadamente com o Lord Acton que “o poder corrompe e o poder absoluto corrompe absolutamente”.A corrida presidencial me lembra tudo isso e a famosa frase do huguenote protestante mutante Henrique IV, na busca do reinado da Paris do século XVI: “Paris, vale bem uma missa”. E volta convenientemente a ser católico para reinar na católica França. O Palácio do Planalto seria essa desejável Paris brasileira pós-moderna. Para obtê-la, protestantes serão capazes de jogar os búzios e ateus de freqüentarem missas, fazerem orações e redigirem confissões de fé. Feira de Santana, 11 de setembro de 2009

A VIOLÊNCIA ESTRUTURAL NA NOSSA VIDA COTIDIANA

Marcos Monteiro

*O conceito de violência simbólica aponta para um acréscimo de violência à violência estrutural própria do sistema. Violência sem agressão física, aparentemente não-violenta, mas de eficácia muito maior porque causa não apenas dor, mas dor significada. Violência dirigida não contra o corpo, mas contra o desejo, a alegria, o amor e a vontade de viver. Violência contra a capacidade de transcendência humana, contra a possibilidade do ser humano ser mais do que um corpo.Incruenta e indolor é o espaço de todas as outras dores, a autorização organizada para as violências físicas, legalizadas e ilegais. A violência estrutural afunila a sociedade, criando uma desigualdade tão desigual que autoriza os sentimentos de injustiça e espoliação sistêmicos, justificando o egoísmo, o crime, a matilha humana prestes a se lançar sobre pessoas e objetos, com a fúria do coração voraz.Para se manter, essa estrutura cria os seus símbolos, os seus mitos, seu apropriado discurso acompanhado de apropriadas imagens. Fugir de sua lógica é tarefa inglória, quase impossível, surpreendemos a nós mesmos repetindo os seus rituais e divulgando sua pregação doutrinária. E a nossa surda indignação se dirige contra os efeitos desse absurdo sistema, mantendo-nos reverentemente no círculo de manutenção, na eternização da ordem estabelecida.O nosso cotidiano tem de estabelecer limites e competências, para entender que o sistema não nos leva a direitos universais, assegurados por uma de suas organizações mais simbólicas, a ONU, na “Declaração Universal dos Direitos Humanos”. O artigo XXV, por exemplo, nos assegura o direito a um padrão de vida digno, com saúde, alimentação, vestuário, cuidados médicos, e segurança na velhice, invalidez ou em dificuldade pessoal de subsistência. Pelos outros artigos, temos direito a emprego, moradia, instrução, locomoção, participação política, opinião, crença, lazer e outras coisas mais. A maior parte da população mundial recebe um pequeno salário para garantir tudo isso, quando tem emprego.Em um sistema hierárquico, concentrador de riquezas, oligárquico e plutocrático, cultuamos o mito da democracia, ou das democracias (sexuais, raciais, políticas, intelectuais, religiosas), e vivemos todos a experiência de um onipresente mercado que transforma tudo em produto de consumo, inclusive o amor. A desigualdade estrutural, portanto, é a fonte da desigualdade cultural e da desigualdade social.Nesses termos, a violência criminal, não é uma ameaça ao sistema, mas a continuidade natural do mesmo, certamente em sua forma mais crua e doentia. É o sintoma de uma doença maior e como todo sintoma dói e dói muito. A doença crônica, continuada todo o dia, nem mesmo é notada ou percebida, apenas vivida, às vezes até celebrada, que toda doença tem também suas esquisitas vantagens.Nos nossos dias, a violência criminal atinge níveis despropositais, e isso nos faz mover em um ambiente de medo, em que a banalidade da morte aponta para a fragilidade da vida. Mas talvez isso seja apenas a radiografia, o avesso, o sintoma de um quadro infinitamente mais cruel, que seria o próprio sistema capitalista em que nos movemos. Nesse sistema nunca teremos o direito ao artigo XXVIII: “Toda pessoa tem direito a uma ordem social e internacional em que os direitos e liberdades estabelecidos na presente Declaração possam ser plenamente realizados”.Feira de Santana, 24 de julho de 2009

sábado, 5 de setembro de 2009

Sermão de Martin Luther King

"Enfim livre, enfim livre! Graças a Deus Todo-Poderoso, sou finalmente livre!"Em seu último sermão para o mundo, na igreja de Ebenézer, Atlanta, na qual era pastor, Martin Luther King Jr. uniu este sonho à sua própria morte:

"Frequentemente eu penso naquilo que é denomina­dor comum e derradeiro da vida: nessa alguma coisa que costumamos chamar de 'morte'. Frequentemente penso em minha própria morte e em meu funeral, mas não em senti­do angustiante. Frequentemente pergunto a mim mesmo o que gostaria que fosse dito então, eu deixo aqui com vo­cês, esta manhã, a resposta...Se vocês estiverem ao meu lado, quando eu encontrar meu dia, lembrem-se de que não quero um longo funeral. E se conseguirem alguém para fazer o "discurso fúnebre", digam-lhe para não falar muito. Digam-lhe para não men­cionar que eu tenho um Prémio Nobel da Paz: isto não é importante! Digam-lhe para não mencionar que eu tenho trezentos ou quatrocentos prémios: isto não é importante!Eu gostaria que alguém mencionasse aquele dia em que Martin Luther King tentou dar a vida a serviço dos outros.Eu gostaria que alguém mencionasse o dia em que Mar­tin Luther King tentou amar alguém.Quero que digam que eu tentei ser direito e caminhar ao lado do próximo.Quero que vocês possam mencionar o dia em que tentei vestir o mendigo, tentei visitar os que estavam na prisão, tentei amar e servir a humanidade.Sim, se quiserem dizer algo, digam que eu fui um arauto: um arauto da justiça, um arauto da paz, um arauto do direito.Todas as outras coisas triviais não têm importância. Não quero deixar atrás nenhum dinheiro.Eu só quero deixar atrás uma vida de dedicação!E isto é tudo o que eu tenho a dizer:Se eu puder ajudar alguém a seguir adianteSe eu puder animar alguém com uma cançãoSe eu puder mostrar a alguém o caminho certoSe eu puder cumprir meu dever cristãoSe eu puder levar a salvação para alguémSe eu puder divulgar a mensagem que o Senhor deixou...então, minha vida não terá sido em vão."

Carta de uma prisão em Birmingham

por Martin Luther King, Jr.
16 de abril de 1963

Meus caros amigos clérigos,

Durante meu confinamento aqui na prisão municipal de Birmingham, deparei-me com sua declaração recente chamando minhas atividades atuais de “insensatas e inoportunas”. Raramente paro para responder a críticas do meu trabalho e ideias. Se tentasse responder a todas as críticas que passam pela minha mesa, minhas secretárias mal teriam tempo para outra coisa que não para essas correspondências no decorrer do dia, e eu não teria tempo algum para o trabalho construtivo. Mas, como sinto que vocês são homens de genuína boa vontade e que suas críticas são expostas com sinceridade, quero tentar responder a sua declaração em termos que espero que sejam pacientes e razoáveis.
Acho que devo mencionar por que estou aqui em Birmingham, já que vocês foram influenciados pela visão que se opõe aos “forasteiros invasores”. Tenho a honra de servir como presidente da Conferência Sulista de Liderança Cristã (Southern Christian Leadership Conference), uma organização que opera em todos os estados sulistas, com sede em Atlanta, Geórgia. Temos cerca de oitenta organizações filiadas por todo o Sul, e uma delas é o Movimento Cristão pelos Direitos Humanos do Alabama (Alabama Christian Movement for Human Rights). Frequentemente, compartilhamos pessoal, recursos educacionais e financeiros com nossos afiliados. Muitos meses atrás, a afiliada aqui em Birmingham pediu-nos para ficar de sobreaviso para tomarmos parte em um programa de ação direta e pacífica, se isso fosse considerado necessário. Nós prontamente concordamos, e, quando o momento chegou, honramos nossa promessa. Assim, eu, junto a vários membros do meu pessoal, estou aqui porque fui convidado. Estou aqui porque tenho vínculos organizacionais aqui.
No entanto, mais fundamentalmente, estou em Birmingham porque a injustiça está aqui. Assim como os profetas do século VIII A.C. abandonaram suas vilas e levaram seu “assim disse o Senhor” muito além das fronteiras de suas cidades natais, e assim como o Apóstolo Paulo abandonou sua vila de Tarso e levou o evangelho de Jesus Cristo às mais remotas partes do mundo greco-romano, também eu sou compelido a levar o evangelho da liberdade para além de minha própria cidade natal. Como Paulo, devo constantemente responder ao chamado macedônio por ajuda.
Além disso, estou ciente do inter-relacionamento entre todas as comunidades e Estados. Não posso ficar ociosamente parado em Atlanta e não estar preocupado com o que acontece em Birmingham. A injustiça em qualquer lugar é uma ameaça à justiça em todos os lugares. Estamos presos em uma rede inescapável de mutualidade, atados em um único laço do destino. Algo que aja sobre alguém diretamente age sobre todos indiretamente. Não podemos nunca mais nos permitir viver com a ideia estreita, provinciana, do “forasteiro agitador”. Qualquer pessoa que viva dentro dos Estados Unidos não pode jamais ser considerada um forasteiro em qualquer lugar dentro de suas fronteiras.
Vocês deploram as manifestações que estão ocorrendo em Birmingham. Mas sua declaração, sinto dizer, deixa de expressar preocupação semelhante com as condições que provocaram as manifestações. Tenho certeza de que nenhum de vocês gostaria de descansar contente com o tipo raso de análise social que trata meramente dos efeitos e não ataca as causas subjacentes. É lamentável que as manifestações estejam ocorrendo em Birmingham, mas é ainda mais lamentável que a estrutura de poder dos brancos da cidade tenha deixado a comunidade negra sem alternativa.
Em qualquer campanha pacífica, há quatro passos básicos: coleta dos fatos para determinar se existem injustiças; negociação; auto-purificação; e ação direta. Efetuamos todos esses passos em Birmingham. Não pode haver nenhum ganho em enunciar o fato de que a injustiça racial engole essa comunidade. Birmingham é provavelmente a cidade mais completamente segregada dos Estados Unidos. Sua feia história de brutalidade é amplamente conhecida. Os negros experimentaram um tratamento grosseiramente injusto nos tribunais. Houve mais bombardeios não solucionados de casas e igrejas negras em Birmingham do que em qualquer outra cidade no país. Esses são os fatos duros e brutais do caso. Com base nessas condições, os líderes negros tentaram negociar com as autoridades da cidade. Mas os últimos recusaram-se consistentemente a tomar parte em negociações de boa fé.
Então, no último mês de setembro, surgiu a oportunidade de falar com os líderes da comunidade econômica de Birmingham. No decorrer das negociações, certas promessas foram feitas pelos comerciantes – por exemplo, de remover os sinais raciais humilhantes das lojas. Com base nessas promessas, o reverendo Fred Shuttlesworth e os líderes do Movimento Cristão pelos Direitos Humanos de Alabama acordaram uma interrupção das manifestações. Com o passar de semanas e meses, percebemos que éramos as vítimas de uma promessa quebrada. Alguns sinais, removidos por pouco tempo, retornaram; outros permaneceram. Como em muitas outras experiências anteriores, nossas esperanças tinham sido destruídas, e a sombra de uma decepção profunda caiu sobre nós. Não tínhamos alternativa a não ser nos prepararmos para a ação direta, por meio da qual exibiríamos nossos próprios corpos como um meio de apresentar nossa causa à consciência das comunidades local e nacional. Cientes das dificuldades envolvidas, decidimos empreender um processo de auto-purificação. Iniciamos uma série de oficinas sobre o pacifismo, e repetidamente nos perguntávamos: “Vocês são capazes aceitar golpes sem retaliar?” “Vocês são capazes de resistir à provação da cadeia?” Decidimos marcar nosso programa de ação direta no período de Páscoa, percebendo que, exceto pelo Natal, é o principal período de compras do ano. Sabendo que um programa vigoroso de retração econômica seria o efeito colateral da ação direta, sentimos que esse seria o melhor momento para aplicar uma pressão sobre os comerciantes em prol da mudança necessária.
Então, demo-nos conta de que a eleição para prefeito de Birmingham ocorreria em março, e rapidamente decidimos postergar a ação para depois do dia de eleição. Quando descobrimos que o Comissário de Segurança Pública, Eugene “Touro” Connor, havia reunido votos suficientes para ir ao segundo turno, decidimos mais uma vez postergar a ação para depois do dia do segundo turno, para que as manifestações não pudessem ser usadas para obscurecer os temas. Como muitos outros, esperávamos ver a derrota do Sr. Connor, e com esse fim aguentamos adiamento após adiamento. Tendo ajudado nessa necessidade da comunidade, sentimos que nosso programa de ação direta não poderia mais ser atrasado.
Vocês podem muito bem perguntar: “Por que ação direta? Por que sit-ins, marchas e assim por diante? Não seria a negociação um caminho melhor?” Vocês estão bastante certos em clamar por negociações. Na verdade, esse é o real propósito da ação direta. A ação direta pacífica busca criar uma tal crise e promover uma tal tensão que a comunidade que constantemente se recusou a negociar é forçada a confrontar o tema. Ela busca, assim, dramatizar um tema que não pode mais ser ignorado. Minha referência à criação de tensão como parte do trabalho do resistente pacífico pode soar um tanto chocante. Mas devo confessar que não tenho medo da palavra “tensão”. Opus-me veementemente à tensão violenta, mas há um tipo de tensão construtiva, pacífica, que é necessária para o crescimento. Assim como Sócrates sentiu que era necessário criar uma tensão na mente para que os indivíduos pudessem ascender da servidão de mitos e de meias verdades ao reino livre de amarras da análise criativa e da avaliação objetiva, também nós temos de ver a necessidade de impertinentes pacíficos para criar o tipo de tensão na sociedade que ajudará os homens a ascenderem das escuras profundezas do preconceito e do racismo às alturas majestosas da compreensão e da fraternidade. O propósito de nosso programa de ação direta é criar uma situação tão recheada de crise que inevitavelmente abrirá as portas à negociação. Eu, portanto, concordo com vocês no seu clamor por negociações. Nossas amadas terras do Sul têm estado atoladas por tempo demais em um trágico esforço para viver em um monólogo ao invés de em um diálogo.
Um dos pontos fundamentais em sua declaração é o de que a ação que eu e meus associados tomamos em Birmingham é inoportuna. Alguns perguntaram: “Por que vocês não deram à nova administração da cidade tempo para agir?” A única resposta que posso dar a essa indagação é que a nova administração de Birmingham tem de ser incitada tanto quanto a que está de saída, antes que ela aja. Estaremos tristemente enganados se sentirmos que a eleição de Albert Boutwell como prefeito trará uma época de ouro a Birmingham. Embora o Sr. Boutwell seja uma pessoa muito mais tolerante do que o Sr. Connor, ambos são segregacionistas, dedicados à manutenção do status quo. Tenho esperança em que o Sr. Boutwell será razoável o bastante para notar a futilidade de uma resistência ampla ao fim da segregação. Mas ele não notará isso sem a pressão dos partidários dos direitos civis. Meus amigos, tenho de dizer a vocês que não obtivemos um único ganho em direitos civis sem uma firme pressão legal e pacífica. Lamentavelmente, é um fato histórico que grupos privilegiados raramente renunciam aos seus privilégios por vontade própria. Indivíduos podem ver a luz da moral e renunciar voluntariamente às suas posturas injustas; mas, como Reinhold Niebuhr lembrou-nos, grupos tendem a ser mais imorais do que indivíduos.
Sabemos por meio de experiências dolorosas que a liberdade nunca é voluntariamente concedida pelo opressor; ela tem de ser exigida pelo oprimido. Francamente, ainda não tomei parte em uma campanha de ação direta que fosse “oportuna” na visão daqueles que não sofreram indevidamente da doença da segregação. Já faz anos que ouço a palavra “Espere!” Ela ressoa nos ouvidos de cada negro com uma familiaridade aguda. Esse “espere” quase sempre significou “nunca”. Temos de chegar à percepção, junto com um de nossos eminentes juristas, de que “a justiça adiada por muito tempo é justiça negada”.
Esperamos por mais de 340 anos por nossos direitos constitucionais e concedidos por Deus. As nações da Ásia e da África estão dirigindo-se com uma velocidade a jato rumo à conquista da independência política, mas nós ainda nos arrastamos a passo de cavalo e de charrete rumo à conquista de uma xícara de café em um aparador. Talvez seja fácil àqueles que nunca sentiram os dardos perfurantes da segregação dizer “espere”. Mas quando você viu bandos perversos lincharem suas mães e pais à vontade e afogar suas irmãs e irmão a seu capricho; quando você viu policiais cheios de ódio amaldiçoarem, chutarem e até matarem seus irmãos e irmãs negros; quando você vê a vasta maioria de seus vinte milhões de irmãos negros sufocando-se em uma jaula hermética da pobreza em meio a uma sociedade de abundância; quando você de repente descobre sua língua travada e sua fala gaga ao tentar explicar a sua irmã de seis anos de idade por que ela não pode ir ao parque de diversões público cuja propaganda acabou de passar na televisão, e vê lágrimas jorrando dos olhos dela quando lhe é dito que o Funtown está fechado para crianças de cor, e vê ameaçadoras nuvens de inferioridade começando a se formar no pequeno céu mental dela, e a vê começar a distorcer sua personalidade ao desenvolver um rancor inconsciente contra as pessoas brancas; quando você tem de inventar uma resposta a um filho de cinco anos de idade que está perguntando: “papai, por que as pessoas brancas tratam as pessoas de cor tão mal?”; quando você faz uma viagem através de seu estado e descobre ser necessário dormir noite após noite nos cantos desconfortáveis de seu carro porque nenhum motel o aceita; quando você é humilhado entra dia sai dia por sinais irritantes dizendo “branco” e “de cor”; quando seu prenome torna-se “neguinho”, seu nome do meio torna-se “menino” (não importa sua idade) e seu sobrenome torna-se “John”, e sua mulher e mãe nunca são chamadas pelo título respeitável de “Sras.”; quando você é perseguido de dia e assombrado à noite pelo fato de que você é um negro, vivendo constantemente na ponta dos pés, sem saber exatamente o que esperar em seguida, e é atormentado por medos interiores e ressentimentos exteriores; quando você está sempre lutando contra uma impressão degradante de “não ser ninguém” – então você entenderá porque achamos difícil esperar. Chega um momento em que a capacidade de suportar esgota-se, e os homens não estão mais dispostos a mergulhar no abismo do desespero. Espero, senhores, que vocês possam compreender nossa impaciência legítima e inevitável. Vocês manifestam uma boa dose de ansiedade quanto à nossa disposição de violar as leis. Essa é certamente uma preocupação legítima. Como nós exortamos tão ativamente as pessoas a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte que baniu a segregação em escolas públicas, à primeira vista pode parecer um tanto paradoxal que nós conscientemente violemos leis. Também se poderia perguntar: “Como vocês podem advogar a violação de certas leis e a obediência a outras?” A resposta está no fato de que existem dois tipos de leis: as justas e as injustas. Eu seria o primeiro a advogar a obediência a leis justas. Tem-se uma responsabilidade não só legal como também moral de obedecer a leis justas. De modo contrário, tem-se uma responsabilidade moral de desobedecer a leis injustas. Concordaria com Santo Agostinho em que “uma lei injusta simplesmente não é lei”.
Agora, qual é a diferença entre as duas? Como se pode determinar se uma lei é justa ou injusta? Uma lei justa é um código produzido pelo homem que se ajusta à lei moral ou à lei de Deus. Uma lei injusta é um código que está em desacordo com a lei moral. Para colocar nos termos de Santo Tomás de Aquino: uma lei injusta é uma lei humana que não está radicada na lei eterna e na lei natural. Qualquer lei que eleve a personalidade humana é justa. Qualquer lei que degrade a personalidade humana é injusta. Todos os estatutos segregacionistas são injustos porque a segregação desfigura a alma e danifica a personalidade. Ela dá ao segregador uma falsa impressão de superioridade e aos segregados, uma falsa impressão de inferioridade. A segregação, para usar a terminologia do filósofo judeu Martin Buber, substitui uma relação “eu-você” por uma relação “eu-isso” e acaba por relegar pessoas à condição de coisas. Portanto, a segregação não é apenas política, econômica e sociologicamente doentia: é moralmente errada e pecaminosa. Paul Tillich disse que o pecado é uma separação. A segregação não é uma expressão existencial da trágica separação do homem, da sua horrível alienação, da sua terrível pecaminosidade? Sendo assim, posso exortar os homens a obedecerem à decisão de 1954 da Suprema Corte, porque ela é moralmente correta; e posso exortá-los a desobedecerem a normas segregacionistas, porque elas são moralmente erradas.
Consideremos um exemplo mais concreto de leis justas e injustas. Uma lei injusta é um código que um grupo majoritário em termos de poder ou de número compele um grupo minoritário a obedecer, mas ao qual não se sujeita. Isso é a diferença tornada legal. Pela mesma razão, uma lei justa é um código que uma maioria compele uma minoria a seguir e que ela própria está disposta a seguir. Isso é a igualdade tornada legal. Deixe-me fazer outro esclarecimento. Uma lei é injusta se for imposta a uma minoria que, por ter o direito de votar negado a si, não participou da decretação ou da criação da lei. Quem pode dizer que o parlamento do Alabama que constituiu as leis segregacionistas daquele Estado foi democraticamente eleito? Por todo o Alabama, todos os tipos de métodos tortuosos foram usados para impedir os negros de tornarem-se eleitores registrados, e há alguns municípios em que, embora os negros componham a maioria da população, um negro sequer está registrado. Qualquer lei decretada sob essas circunstâncias pode ser considerada democraticamente estruturada?
Às vezes, uma lei é justa no papel e injusta na sua aplicação. Por exemplo, fui preso por uma acusação de fazer uma passeata sem autorização. Agora, não há nada de errado em existir uma norma que exija uma autorização para uma passeata. Mas essa norma torna-se injusta quando é usada para manter a segregação e negar a cidadãos o direito fundamental da primeira emenda à Constituição de reunião pacífica e de protesto.
Espero que vocês sejam capazes de observar a distinção que estou tentando mostrar. De modo algum, defendo a evasão e o desafio à lei, como faria o segregacionista furioso. Isso levaria à anarquia. Alguém que viole uma lei injusta tem de fazê-lo abertamente, amorosamente, e com disposição para aceitar a pena. Argumento que um indivíduo que viola uma lei que a consciência lhe diz que é injusta, e que aceita de bom grado a pena de prisão a fim de despertar a consciência da comunidade quanto à sua injustiça, está na verdade exprimindo o mais elevado respeito à lei.
Obviamente, não há nada de novo nessa forma de desobediência civil. Ela foi manifestada de maneira sublime pela recusa de Shadrach, Meshach e Abednego a obedecerem às leis de Nabucodonosor, sob o argumento de que estava em jogo uma lei moral mais elevada. Foi praticada soberbamente pelos primeiros cristãos, que preferiam enfrentar leões famintos e a dor torturante do talho a submeter-se a certas leis injustas do Império Romano. Até certo ponto, a liberdade acadêmica é uma realidade hoje porque Sócrates praticou a desobediência civil. Na nossa própria nação, o Boston Tea Party representou um ato imponente de desobediência civil.
Nunca devemos nos esquecer de que tudo que Adolf Hitler fez na Alemanha era “legal” e tudo que os combatentes húngaros da liberdade fizeram na Hungria era “ilegal”. Era “ilegal” ajudar e confortar um judeu na Alemanha de Hitler. Ainda assim, tenho certeza de que, se tivesse vivido na Alemanha naquele tempo, teria ajudado e confortado meus irmãos judeus. Se vivesse hoje em um país comunista onde certos princípios caros à fé cristã foram suprimidos, defenderia abertamente a desobediência às leis antirreligiosas do país.
Tenho de fazer duas confissões sinceras a vocês, meus irmãos cristãos e judeus. Primeiro, tenho de confessar que ao longo dos últimos anos decepcionei-me seriamente com os brancos moderados. Quase cheguei à lamentável conclusão de que a maior pedra no caminho dos negros em seu avanço rumo à liberdade não é o White Citizen’s Counciler ou o membro da Ku Klux Klan, mas os brancos moderados, que são mais zelosos da “ordem” do que da justiça; que preferem uma paz negativa que é a ausência de tensão a uma paz positiva que é a presença da justiça; que dizem constantemente: “concordo com vocês quanto ao objetivo que buscam, mas não posso concordar com seus métodos de ação direta”; que acreditam paternalisticamente que podem fixar o cronograma para a liberdade de outro homem; que vivem sob um conceito mítico do tempo e que constantemente aconselham o negro à espera por uma “época mais apropriada”. A compreensão superficial de pessoas de boa vontade é mais frustrante do que a incompreensão completa de pessoa de má vontade. A aceitação morna é muito mais atordoante do que a rejeição total.
Eu tinha tido esperanças de que os brancos moderados compreenderiam que a lei e a ordem existem para o propósito de estabelecer a justiça e que quando fracassam nesse propósito tornam-se represas estruturadas perigosamente que bloqueiam o curso do progresso social. Tinha tido esperanças de que os brancos moderados compreenderiam que a atual tensão no sul é uma fase necessária da transição de uma detestável paz negativa, em que os negros passivamente aceitavam suas injustas situações difíceis, para uma paz positiva e substantiva, em que todos os homens respeitarão a dignidade e o valor da personalidade humana. Na realidade, nós que nos envolvemos em ações diretas pacíficas não somos os criadores da tensão. Tão-somente trazemos à superfície a tensão oculta que já existe. Descortinamo-la, para que possa ser vista e tratada. Como um furúnculo que não pode ser curado enquanto estiver coberto, mas que deve ser exposto com toda a sua feiura aos remédios naturais do ar e da luz, a injustiça tem de ser desvendada, com toda a tensão que sua exposição gera, à luz da consciência humana e ao ar da opinião nacional, antes que possa ser curada.
Em sua declaração, vocês afirmam que nossas ações, embora pacíficas, devem ser condenadas porque precipitam a violência. Mas essa é uma afirmação lógica? Isso não equivale a condenar um homem roubado porque sua posse de dinheiro precipitou o ato mau do roubo? Isso não equivale a condenar Sócrates porque seu compromisso inabalável com a verdade e suas investigações filosóficas precipitaram o ato do povo mal orientado pelo qual o fizeram beber a cicuta? Isso não equivale a condenar Jesus porque sua singular consciência divina e devoção inesgotável à vontade de Deus precipitaram o ato mau da crucificação? Devemos notar que, como os tribunais federais consistentemente afirmaram, é errado incitar um indivíduo a interromper seus esforços para obter seus direitos constitucionais básicos porque a jornada pode precipitar a violência. A sociedade tem de proteger o roubado e punir o ladrão. Também tinha tido esperanças de que os brancos moderados rejeitariam o mito concernente ao tempo em relação à luta pela liberdade. Recebi há pouco uma carta de um irmão branco do Texas. Ele escreve: “Todos os cristãos sabem que as pessoas de cor um dia receberão direitos iguais, mas é possível que vocês estejam com uma pressa religiosa grande demais. A cristandade precisou de quase dois mil anos para alcançar o que tem hoje. Os ensinamentos de Cristo demoram a chegar a Terra.” Essa concepção decorre de um trágico conceito errôneo do tempo, da noção estranhamente irracional de que há algo no próprio curso do tempo que inevitavelmente curará todos os males. Na realidade, o tempo em si é neutro; pode ser usado quer destrutivamente, quer construtivamente. Cada vez mais, sinto que as pessoas de má vontade usam o tempo de modo muito mais eficaz do que as pessoas de boa vontade. Nós nos arrependeremos, no tocante a essa geração, não apenas das palavras e ações odiáveis das pessoas más, como também do silêncio espantoso das pessoas boas. O progresso humano nunca advém da roda da inevitabilidade; ele deflui dos incansáveis esforços de homens dispostos a serem colegas de trabalho de Deus, e, sem esse trabalho duro, o próprio tempo torna-se um aliado das forças da estagnação social. Temos de usar o tempo criativamente, com base no conhecimento de que o tempo sempre está pronto para fazer o certo. Agora é a hora de tornar real a promessa de democracia e de transformar nossa iminente elegia nacional em um criativo salmo da fraternidade. Agora é a hora de alçar nossa política nacional da areia movediça da injustiça racial à sólida rocha da dignidade humana.
Vocês falam de nossa atividade em Birmingham como extrema. A princípio, fiquei um pouco decepcionado com o fato de amigos clérigos considerarem meus esforços pacíficos como os de um extremista. Comecei a pensar sobre o fato de que me situo no meio de duas forças opostas na comunidade negra. Uma é a força da complacência, composta em parte por negros que, como resultado de longos anos de opressão, estão tão carentes de amor-próprio e da sensação de “ser alguém” que se adaptaram à segregação; e em parte de alguns negros de classe média que, devido a certo grau de segurança acadêmica e econômica e porque se beneficiam de algum modo da segregação, tornaram-se insensíveis aos problemas das massas. A outra é uma força da amargura e do ódio, que chega perigosamente perto de defender a violência. Manifesta-se em vários grupos nacionalistas negros que estão brotando por todo o país, sendo o maior e mais conhecido o movimento islâmico de Elijah Muhammad. Alimentado pela frustração dos negros pela existência contínua da discriminação racial, esse movimento é composto de pessoas que perderam a fé nos Estados Unidos, que repudiaram completamente o cristianismo e que concluíram que o homem branco é um “demônio” incorrigível.
Tentei me situar entre essas duas forças, dizendo que não precisamos imitar nem a inação dos complacentes nem o ódio e o desespero dos nacionalistas negros. Porque existe a maneira muito melhor do amor e do protesto pacífico. Sou grato a Deus por, mediante a influência da igreja negra, a maneira do pacifismo ter-se tornado uma parte essencial de nossa luta. Se essa filosofia não tivesse surgido, muitas ruas do sul estariam agora, tenho certeza, com rios de sangue. Estou ainda mais certo de que, se nossos irmãos brancos repudiarem aqueles de nós que empregam ações diretas pacíficas como “um bando de inflamados” ou “forasteiros agitadores”, e se se recusarem a apoiar nossos esforços pacíficos, milhões de negros buscarão, por frustração e desespero, consolo e segurança em ideologias nacionalistas negras – uma evolução que inevitavelmente levaria a um assustador pesadelo racial.
Pessoas oprimidas não podem permanecer oprimidas para sempre. A ânsia pela liberdade por fim manifesta-se, e foi isso que aconteceu com o negro americano. Algo em seu interior lembrou-lhe de seu direito inato à liberdade, e algo exterior lembrou-lhe que ele pode ser obtido. Consciente ou inconscientemente, ele foi apanhado pelo espírito da época, e com seus irmãos negros da África e seus irmãos amarelos e pardos da Ásia, da América do Sul e do Caribe, o negro dos Estados Unidos está se movendo com uma sensação de incrível urgência rumo à terra prometida da justiça racial. Ao reconhecer-se esse anseio vital que se apoderou da comunidade negra, entende-se prontamente por que manifestações públicas estão ocorrendo. O negro tem muitos ressentimentos reprimidos e frustrações latentes, e ele precisa libertá-los. Então, deixe-o marchar; deixe-o fazer peregrinações pias às prefeituras; deixe-o ir em viagens pela liberdade – e tente entender por que ele tem de fazê-lo. Se suas emoções reprimidas não forem liberadas de maneiras pacíficas, buscarão expressão por meio da violência; isso não é uma ameaça, mas um fato histórico. Assim, não disse ao meu povo: “livre-se de seu desgosto”. Antes, tentei dizer que esse desgosto normal e saudável pode ser canalizado por escapes criativos como a ação direta pacífica. E agora esse método está sendo denominado de extremista. Mas, embora tenha ficado inicialmente decepcionado ao ser classificado como extremista, continuando a pensar sobre o assunto, gradualmente extraí certa dose de satisfação do rótulo. Não era Jesus um extremista do amor: “Ame seus inimigos, abençoe aqueles que te amaldiçoam, faça o bem àqueles que te odeiam e reze por aqueles que desprezivelmente te usam e te atormentam”? Não era Amos um extremista da justiça: “Deixem a justiça fluir como as águas e a probidade como um rio que nunca para”? Não era Paulo um extremista do evangelho cristão: “Carrego no meu corpo as marcas do Senhor Jesus”? Não era Martinho Lutero um extremista: “Aqui estou; não tenho alternativa, então que Deus me ajude”? E John Bunyan: “Ficarei na prisão até o fim dos meus dias, até que faça da minha consciência um matadouro”? E Abraham Lincoln: “Esse país não pode sobreviver metade escravo e metade livre”? E Thomas Jefferson: “Temos essas verdades como auto-evidentes, de que todos os homens nascem iguais...”? Assim, a questão não é se seremos extremistas, mas que tipo de extremistas seremos. Seremos extremistas do ódio ou do amor? Seremos extremistas da preservação da injustiça ou da extensão da justiça? Naquela cena dramática do Calvário, três homens foram crucificados. Nunca devemos nos esquecer de que todos os três foram crucificados pelo mesmo crime – o crime de extremismo. Dois eram extremistas da imoralidade e, assim, estavam abaixo dos demais. O outro, Jesus Cristo, era um extremista do amor, da verdade e do bem, e, por conseguinte, ergueu-se acima dos demais. Talvez o sul, o país e o mundo estejam com uma terrível carência de extremistas criativos.
Tivera esperança de que os brancos moderados notariam essa carência. Talvez estivesse otimista demais; talvez esperasse demais. Suponho que deveria ter percebido que poucos membros da raça opressora podem compreender os graves gemidos e os anseios apaixonados da raça oprimida, e que menos ainda têm a perspicácia para notar que a injustiça tem de ser extirpada por ações fortes, persistentes e determinadas. Sou grato, contudo, pelo fato de que alguns de nossos irmãos brancos do sul alcançaram o significado dessa revolução social e empenharam-se nela. Eles ainda são muito poucos em quantidade, mas são muitos em qualidade. Alguns – como Ralph McGill, Lillian Smith, Harry Golden, James McBride Dabbs, Ann Braden e Sarah Patton Boyle – escreveram sobre nossa luta em termos eloquentes e proféticos. Outros marcharam conosco por ruas sem nome do sul. Debilitaram-se em prisões imundas, infestada por baratas, sofrendo os abusos e a brutalidade de policiais que os veem como “sujos amantes dos negros”. Diferentemente de tantos de seus irmãos e irmãs moderados, reconheceram a urgência do momento e sentiram a necessidade de poderosos antídotos “de ação” para combater a doença da segregação. Deixem-me tomar nota de minha outra grande decepção. Decepcionei-me tão imensamente com a igreja branca e suas lideranças. É claro, há algumas notáveis exceções. Não me esqueço do fato de que cada um de vocês tomou algumas posições significativas nesse tema. Louvo-o, reverendo Stallings, pela sua postura cristã no último domingo, ao receber negros nos seus serviços de devoção de maneira não-segregacionista. Louvo os líderes católicos desse Estado por terem integrado o Spring Hill College muitos anos atrás.
Mas, apesar dessas notáveis exceções, tenho de sinceramente reiterar que me decepcionei com sua igreja. Não digo isso como um daqueles críticos negativos que sempre conseguem encontrar algo errado na igreja. Digo isso como um sacerdote do evangelho, que ama a igreja; que foi acalentado em seu seio; que tem sido sustentado por suas bênçãos espirituais e que permanecerá fiel a ela enquanto o fio da vida estender-se.
Quando fui de repente catapultado à liderança do protesto dos ônibus em Montgomery, Alabama, há alguns anos, achei que seríamos apoiados pela igreja branca. Achei que os sacerdotes, os padres e os rabinos brancos do sul estariam entre os nossos mais firmes aliados. Ao contrário, alguns foram completos oponentes, recusando-se a compreender o movimento pela liberdade e deturpando seus líderes; muitos outros foram mais cautelosos do que corajosos e permaneceram mudos atrás da segurança anestesiante das janelas de vitral.
A despeito de meus sonhos despedaçados, vim a Birmingham com a esperança de que a liderança religiosa branca dessa comunidade veria a justiça de nossa causa e, com profunda preocupação moral, serviria como canal através do qual nossas justas queixas alcançariam a estrutura do poder. Tivera esperança de que cada um de vocês compreenderia. Mas, de novo, decepcionei-me.
Ouvi numerosos líderes religiosos sulistas admoestarem seus devotos a cumprir a decisão contra a segregação porque é a lei, mas ansiei por ouvir sacerdotes brancos declararem: “Sigam esse decreto porque a integração é moralmente correta e porque o negro é seu irmão.” Em meio a barulhentas injustiças infligidas sobre o negro, observei membros da igreja permanecerem à distancia e declamarem irrelevâncias pias e platitudes carolas. Em meio a uma vigorosa luta para livrar nosso país da injustiça racial e econômica, ouvi muitos sacerdotes dizerem: “Esses são temas sociais, com os quais o evangelho não tem nenhuma preocupação real”. E vi muitas igrejas empenharem-se numa religião completamente de outro mundo que faz uma estranha e não-bíblica distinção entre o corpo e a alma, entre o sagrado e o secular.
Viajei acima e abaixo por Alabama, Mississipi e todos os outros estados sulistas. Em dias sufocantes de verão e manhãs revigorantes de outono, contemplei as lindas igrejas do sul, com seus cumes majestosos apontados em direção aos céus. Admirei os perfis impressionantes dos amplos edifícios de educação religiosa. Repetidamente, peguei-me perguntando: “Que tipo de pessoa ora aqui? Quem é seu Deus? Onde estavam suas vozes quando dos lábios do governador Barnett respingaram palavras de interposição e nulificação? Onde elas estavam quando o governador Wallace deu um toque de clarim em favor do desafio e do ódio? Onde estavam suas vozes de apoio quando homens e mulheres negros, feridos e exaustos, decidiram levantar-se dos calabouços escuros da complacência até as colinas claras do protesto criativo?”
Sim, essas perguntas ainda estão na minha mente. Em decepção profunda, chorei pela frouxidão da igreja. Mas estejam certos de que minhas lágrimas foram lágrimas de amor. Não pode existir decepção profunda onde não existe amor profundo. Sim, amo a igreja. Como poderia não amar? Estou na posição um tanto singular de filho, neto e bisneto de pregadores. Sim, vejo a igreja como o corpo de Cristo. Mas, oh!, como maculamos e deixamos cicatrizes nesse corpo por meio da negligência social e por meio do medo de sermos não-conformistas.
Houve um tempo em que a igreja era bastante ponderosa – no tempo em que os primeiros cristãos regozijavam-se por ser considerados dignos de ter sofrido por aquilo em que acreditavam. Naqueles dias, a igreja não era apenas um termômetro que registrava as idéias e princípios da opinião pública; era um termostato que transformava os costumes da sociedade. Quando os primeiros cristãos entravam em uma cidade, as pessoas no poder ficavam transtornadas e imediatamente buscavam condenar os cristãos por serem “perturbadores da paz” e “forasteiros agitadores”. Mas os cristãos prosseguiam, com a convicção de que eram “uma colônia do céu”, que devia obediência a Deus e não ao homem. Pequenos em número, eram grandes em compromisso. Eles eram intoxicados demais por Deus para serem “astronomicamente intimidados”. Com seu esforço e exemplo, puseram um fim em maldades antigas como o infanticídio e duelos de gladiadores. As coisas são diferentes agora. Com tanta frequência a igreja contemporânea é uma voz fraca, ineficaz com um som incerto. Com tanta frequência é uma arquidefensora do status quo. Longe de se sentir transtornada pela presença da igreja, a estrutura do poder da comunidade normal é confortada pela sanção silenciosa – e com frequência sonora – da igreja das coisas tais como são.
Mas o julgamento de Deus pesa sobre a igreja como nunca pesou. Se a igreja atual não recuperar o espírito de sacrifício da igreja primitiva, perderá sua autenticidade, será privada da lealdade de milhões e será descartada como um clube social irrelevante com nenhum significado para o século XX. Todos os dias, encontro pessoas jovens cuja decepção com a igreja tornou-se uma repugnância absoluta.
Talvez tenha sido mais uma vez otimista demais. Estará a religião organizada ligada inextricavelmente demais ao status quo para salvar o país e o mundo? Talvez deva dirigir minha fé à igreja interior, espiritual, a igreja dentro da igreja, como a verdadeira ekklesia e a esperança do mundo. Mas, de novo, sou grato a Deus por algumas almas nobres das fileiras da igreja organizada terem rompido as correntes paralisantes do conformismo e unido-se a nós como parceiros ativos na luta pela liberdade. Eles abandonaram suas congregações seguras e percorreram as ruas de Albany, Geórgia, conosco. Desceram as rodovias do sul em viagens tortuosas pela liberdade. Sim, foram para a cadeia conosco. Alguns foram expulsos de suas igrejas, perderam o apoio de seus bispos e colegas sacerdotes. Mas agiram com a fé de que o bem derrotado é mais forte do que o mal triunfante. Sua testemunha tem sido o sal espiritual que tem preservado o verdadeiro significado do evangelho nesses tempos turbulentos. Eles cavaram um túnel de esperança através da montanha negra da decepção. Espero que a igreja como um todo enfrente o desafio nessa hora decisiva. Mas mesmo que a igreja não venha ajudar a justiça, não perco a esperança no futuro. Não tenho medo a respeito do resultado de nossa luta em Birmingham, mesmo que nossas razões sejam no momento mal compreendidas. Alcançaremos a meta da liberdade em Birmingham e no mundo inteiro, porque a meta dos Estados Unidos é a liberdade. Não importa se estamos ofendidos e escarnecidos, nosso destino está ligado ao destino dos Estados Unidos. Antes de os peregrinos desembarcarem em Plymouth, estávamos aqui. Antes de a pena de Jefferson desenhar as palavras majestosas da Declaração de Independência através das páginas da história, estávamos aqui. Por mais de dois séculos, nossos antepassados trabalharam nesse país sem receber salários; eles colheram o algodão; eles construíram as casas de seus senhores enquanto sofriam injustiças crassas e humilhações vergonhosas – e, no entanto, com uma vitalidade sem fim, continuaram a prosperar e a desenvolver-se. Se as crueldades inenarráveis da escravidão não puderam parar-nos, a oposição que enfrentamos agora certamente fracassará. Ganharemos nossa liberdade porque a herança sagrada de nosso país e a eterna vontade de Deus estão incorporadas nas nossas sonoras exigências. Antes de encerrar, sinto-me impelido a mencionar outro ponto em sua declaração que me perturbou profundamente. Vocês calorosamente elogiaram a força policial de Birmingham por manter a “ordem” e “impedir a violência”. Duvido que teriam elogiado tão calorosamente a força policial se tivessem visto seus cães afundando seus dentes em negros desarmados, pacíficos. Duvido que teriam elogiado tão rapidamente os policiais se fossem observar seu tratamento horrível e desumano dos negros aqui na prisão municipal; se fossem vê-los empurrar e amaldiçoar velhas mulheres negras e jovens meninas negras; se fossem vê-los estapear e chutar velhos homens negros e jovens meninos; se fossem observá-los, como fizeram em duas ocasiões, negar-nos comida porque queríamos cantar nossa oração juntos. Não posso acompanhá-los no seu louvor ao departamento de polícia de Birmingham.
É verdade que a polícia demonstrou um nível de disciplina ao lidar com os manifestantes. Nesse sentido, eles se conduziram um tanto “pacificamente” em público. Mas com que propósito? Para preservar o sistema maligno da segregação. Ao longo dos últimos anos, continuamente preguei que o pacifismo exige que os meios que usamos devem ser tão puros quanto os fins que buscamos. Tentei deixar claro que é errado usar meios imorais para alcançar fins morais. Mas agora tenho de afirmar que isso é tão errado, ou talvez ainda mais errado, quanto usar meios morais para preservar fins imorais. Talvez o Sr. Connor e seus policiais tenham sido um tanto pacíficos em público, como foi o coronel Pritchett em Albany, Geórgia, mas eles usaram os meios morais do pacifismo para manter o fim imoral da injustiça racial. Como T. S. Eliot disse: “A última tentação é a maior traição: fazer a coisa certa pelo motivo errado.”
Gostaria que vocês tivessem louvado os sit-inners e manifestantes negros de Birmingham pela sua coragem sublime, sua disposição para sofrer e sua disciplina incrível em meio a uma grande provocação. Um dia, o sul reconhecerá seus verdadeiros heróis. Eles serão os James Merediths, com o nobre senso de justiça que lhes permite enfrentar bandos zombeteiros e hostis, e com a solidão agonizante que caracteriza a vida do pioneiro. Eles serão as velhas, oprimidas, castigadas mulheres negras, simbolizadas em uma velha mulher de setenta e dois anos de idade de Montgomery, Alabama, que se ergueu com um senso de dignidade e com seus iguais decidiu não viajar em ônibus segregacionistas, e que respondeu com profundidade agramatical a alguém que lhe indagou sobre seu cansaço: “Meus pé está cansado, mas minha alma está em paz.” Eles serão os estudantes colegiais e universitários, os jovens sacerdotes do evangelho e uma multidão de seus pais, corajosa e pacificamente sentando-se em aparadores e dispostos a ir para cadeia por amor à consciência. Um dia, o sul saberá que quando esses filhos deserdados de Deus sentaram-se em aparadores, estavam na verdade fazendo jus ao que há de melhor no sonho americano e o que há de mais sagrado nos valores de nossa herança judaico-cristã, desse modo trazendo nosso país de volta àqueles grandes poços de democracia que foram cavados em profundidade pelos pais fundadores na sua formulação da Constituição e da Declaração de Independência.
Nunca escrevi uma carta tão longa. Temo que seja longa demais para tomar seu tempo precioso. Posso lhes garantir que teria sido muito menor se a tivesse escrito em uma mesa confortável, mas o que mais se pode fazer quando se está sozinho em um cela apertada a não ser escrever longas cartas, pensar longos pensamentos e rezar longas orações?
Se disse algo nessa carta que exagera os fatos e indica uma impaciência imoderada, peço que me perdoem. Se disse algo que atenua os fatos e indica uma paciência que me permite conciliar-me com algo menor do que a fraternidade, peço a Deus que me perdoe.

Espero que essa carta encontre-os fortes em sua fé. Espero também que as circunstâncias em breve permitam que me encontre com cada um de vocês, não como um integracionista ou um líder dos direitos civis, mas como um colega clérigo e um irmão cristão. Tenhamos todos esperança em que as nuvens negras do preconceito desapareçam em breve e a neblina profunda da incompreensão dissipe-se das nossas comunidades cheias de medo, e que em um amanhã não muito distante as estrelas radiantes do amor e da fraternidade brilhem sobre nosso grande país com toda a sua beleza cintilante.

Sinceramente, pela causa da Paz e da Fraternidade, Martin Luther King, Jr.